O apetite do Studio Ghibli virou livro de receita
O novo livro oficial do Studio Ghibli transforma cenas inesquecíveis de Ponyo em pratos para fazer em casa
A comida sempre teve um papel especial nos filmes do Studio Ghibli. Não aparece apenas para preencher a tela, nem funciona como um detalhe decorativo entre uma cena e outra. Nos mundos criados por Hayao Miyazaki e pelo estúdio japonês, comer costuma ser um gesto de cuidado, descanso, descoberta e pertencimento. Uma tigela de ramen pode aquecer duas crianças no meio de uma tempestade, um sanduíche pode revelar afeto em poucos segundos, e um copo de leite quente pode dizer mais sobre proteção do que muitos diálogos longos.
Agora, esse imaginário ganha uma nova forma fora da tela. A editora japonesa Shufu no Tomo anunciou o lançamento de “Kodomo Ryori Ehon Ghibli no Shokutaku: Gake no Ue no Ponyo”, novo volume da série de livros de receitas inspirados em filmes do Studio Ghibli. A obra chega ao mercado japonês em 10 de julho de 2026, com supervisão do próprio estúdio, edição da Shufu no Tomo e receitas assinadas por Futaba Sukenari. O livro terá 64 páginas, formato B5, preço de ¥1.980 com impostos incluídos e já entrou em pré-venda em livrarias online do Japão.
O lançamento não é apenas mais um produto para fãs. Ele confirma como a comida de Ghibli deixou de ser apenas memória afetiva de quem viu os filmes e passou a ocupar um espaço concreto na cultura doméstica japonesa. A proposta é simples, mas poderosa: permitir que crianças, pais, fãs de anime e curiosos recriem em casa pratos que pareciam existir apenas dentro daquele universo desenhado à mão, onde o vapor da comida, a textura do ovo, o brilho do caldo e o som de uma mordida sempre foram tratados com atenção quase emocional.
Ponyo, ramen e a cena que virou fome coletiva
O novo livro é dedicado a “Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar”, filme lançado em 2008 e lembrado por sua mistura de fantasia infantil, natureza, oceano e afeto familiar. Entre todas as imagens marcantes da obra, poucas ficaram tão gravadas na memória dos fãs quanto a cena do ramen preparado por Lisa para Sosuke e Ponyo.
É uma sequência simples. Duas crianças, cansadas e molhadas, recebem uma tigela de ramen quente. Há macarrão instantâneo, presunto, ovo e cebolinha. A câmera não transforma a comida em luxo, mas em conforto. O prato é fácil, cotidiano, quase comum demais para ser inesquecível. Ainda assim, é exatamente essa simplicidade que o torna tão forte. Ponyo, recém-chegada ao mundo humano, reage ao presunto com uma alegria absoluta, como se aquele alimento fosse uma revelação.
O livro oficial leva essa memória para a cozinha com a receita do ramen especial de Lisa com presunto e ovo, um dos pratos centrais da publicação. A obra também ensina a preparar o sanduíche apressado de Lisa, o leite quente com mel que aquece Sosuke e Ponyo, e o sorvete soft cream que aparece ligado ao universo do filme. São receitas pensadas para aproximar o leitor da obra por meio de ingredientes reconhecíveis, compráveis em supermercados e possíveis de preparar sem técnica avançada.
A escolha por Ponyo não parece acidental. Entre os filmes do estúdio, ele é um dos que mais associam comida à descoberta do mundo humano. Para Ponyo, comer presunto, tomar leite quente ou dividir uma refeição é uma maneira de experimentar a vida fora do mar. Para Sosuke, oferecer comida é uma forma de acolher. Para Lisa, cozinhar é uma resposta prática diante do caos, da chuva e da incerteza. O prato não resolve a tempestade, mas cria abrigo.
Um livro feito para cozinhar com crianças, não para intimidar adultos
A série “Ghibli no Shokutaku”, que pode ser entendida como “A Mesa de Ghibli”, tem uma característica importante: ela não é apresentada como um livro gastronômico sofisticado, voltado para chefs ou colecionadores adultos. A proposta oficial é a de um livro ilustrado de receitas para crianças, com preparo explicado por fotos, linguagem acessível e indicações de dificuldade.
Segundo a editora, as receitas foram pensadas para que alunos do ensino fundamental possam cozinhar junto com adultos. Os processos são divididos de forma visual, os kanjis recebem leitura auxiliar em japonês, e os ingredientes são descritos como itens fáceis de encontrar. Isso muda completamente o tom da publicação. O objetivo não é reproduzir a perfeição estética de uma cena animada, mas transformar a lembrança do filme em uma atividade de família.
Essa decisão combina com o próprio espírito do Studio Ghibli. Em muitos filmes do estúdio, a comida não aparece como espetáculo distante, mas como uma prática cotidiana. Alguém corta legumes, prepara uma marmita, serve arroz, aquece sopa, divide pão, oferece chá. O gesto manual é tão importante quanto o resultado final. A cozinha, nesses filmes, raramente é um espaço de competição. Ela é um lugar de cuidado, rotina, sobrevivência e convivência.
Receitas originais expandem o mundo do filme
Além dos pratos diretamente ligados às cenas de Ponyo, o livro também inclui receitas originais inspiradas no universo visual e temático da obra. Entre elas estão a omelete de arroz cheia de magia, o curry branco de frutos do mar do marinheiro, a gelatina de bolhas misteriosas do mar, sopas simples e preparações com aparência lúdica, como salsichas em formato de criaturas marinhas.
Esse ponto é importante porque mostra que o livro não se limita a copiar cenas famosas. Ele também tenta interpretar o clima do filme por meio da comida. Ponyo é uma história marcada pela água, pela transformação, pelo olhar infantil sobre o mundo e por uma energia quase caótica da natureza. Ao criar receitas que evocam o mar, a magia e a brincadeira, a publicação amplia o repertório do filme para além dos pratos que aparecem literalmente na tela.
No Japão, esse tipo de produto conversa diretamente com uma cultura de consumo que valoriza a ligação entre personagens, lugares, alimentos e experiências. Cafés temáticos, menus sazonais, livros ilustrados, lojas de museu e produtos regionais costumam transformar obras populares em vivências concretas. O novo volume de Ghibli segue essa lógica, mas com uma diferença relevante: em vez de levar o fã a um café caro e temporário, leva a experiência para dentro de casa.
Ghibli descobriu que sua comida nunca foi coadjuvante
O lançamento também reforça uma verdade que os fãs já conheciam: nos filmes do Studio Ghibli, a comida nunca foi apenas coadjuvante. Em “Meu Vizinho Totoro”, a marmita de Satsuki comunica responsabilidade e afeto. Em “A Viagem de Chihiro”, a comida pode ser tentação, excesso, punição, conforto ou salvação. Em “O Serviço de Entregas da Kiki”, tortas, pães e cafés ajudam a construir uma ideia de trabalho, independência e comunidade. Em “O Castelo Animado”, o café da manhã preparado por Calcifer virou uma das cenas culinárias mais lembradas da animação japonesa.
Por isso, a série de livros de receitas faz sentido. Antes de Ponyo, a coleção já havia passado por títulos como “Aya e a Bruxa”, “Meu Vizinho Totoro”, “O Castelo no Céu”, “O Serviço de Entregas da Kiki” e “A Viagem de Chihiro”. O volume de Ponyo será o sexto da série, consolidando uma linha editorial que trata a comida como porta de entrada para a narrativa.

Esse movimento também revela como Ghibli continua comercialmente vivo mesmo quando seus filmes já fazem parte da memória cultural japonesa e mundial. O estúdio não depende apenas de estreias cinematográficas para permanecer presente. Ele se mantém através de museus, parques, relançamentos, produtos, livros, exposições e objetos que transformam cenas antigas em novas formas de consumo. A diferença é que, no caso da comida, esse consumo tem um apelo mais íntimo. Não se trata apenas de comprar um personagem estampado em um item. Trata-se de tentar reproduzir uma sensação.
A nostalgia agora vai para a panela
O novo livro de receitas de Ponyo chega em um momento em que o público internacional continua redescobrindo a força estética do Studio Ghibli. Nas redes sociais, cenas de comida do estúdio seguem circulando como vídeos curtos, gifs, montagens e referências visuais. O apelo é fácil de entender. Em uma época de consumo acelerado, telas frias e refeições muitas vezes apressadas, a comida de Ghibli oferece uma fantasia muito específica: a de que cozinhar e comer ainda podem ser momentos de pausa, presença e cuidado.
É por isso que o ramen de Ponyo permanece tão forte. Ele não é um prato raro, caro ou tecnicamente complexo. É macarrão quente com coberturas simples. Mas, dentro do filme, ele representa abrigo. Representa a passagem de Ponyo para o mundo humano. Representa a capacidade de Lisa de cuidar das crianças em meio ao caos. Representa aquela sensação universal de que, às vezes, uma comida simples na hora certa pode mudar o peso de um dia inteiro.
No fim, o lançamento de “Ghibli no Shokutaku: Ponyo” mostra que a magia do estúdio talvez nunca tenha estado apenas nos castelos voadores, nas criaturas fantásticas ou nas florestas encantadas. Parte dela sempre esteve ali, no vapor subindo de uma tigela, no ovo cortado ao meio, no presunto sobre o ramen, no leite quente servido para espantar o frio. Ghibli ensinou o público a sentir fome de mundos imaginários. Agora, quer ensinar também a prepará-los.