Morre o fundador do Sukiya: o homem que desafiou a Yoshinoya e venceu
De funcionário de concorrente a criador do maior império de gyudon do Japão
A morte de Kentaro Ogawa encerra uma das trajetórias mais impressionantes do mundo dos negócios no Japão. Fundador da Zensho Holdings e responsável por transformar o Sukiya na maior rede de gyudon do país, ele não começou como empresário — mas como funcionário de uma rival.
Antes de construir seu próprio império, Ogawa trabalhou na Yoshinoya, justamente a empresa que dominava o mercado de gyudon na época. Foi ali que ele aprendeu, na prática, como funcionava o negócio que mais tarde revolucionaria.
Mas também foi ali que ele enxergou suas limitações — e decidiu fazer diferente.
A visão que nasceu da frustração
Durante sua experiência na Yoshinoya, Ogawa percebeu um problema estrutural: o modelo era eficiente, mas pouco flexível e vulnerável a crises.
Essa percepção se tornaria crucial anos depois. Quando fundou sua própria empresa em 1982, em Yokohama, ele inicialmente tentou operar um restaurante com cardápio variado — mas o negócio quase fracassou.
Foi então que tomou uma decisão estratégica que mudaria tudo: focar exclusivamente no gyudon, mas com uma abordagem mais agressiva em preço, escala e operação. Assim nascia o Sukiya.
A estratégia que virou o jogo no Japão
O momento decisivo veio em 2004, durante a crise da “vaca louca”, quando o Japão proibiu a importação de carne bovina dos Estados Unidos.
A Yoshinoya, dependente dessa cadeia, suspendeu temporariamente a venda de gyudon — seu principal produto.
Ogawa fez o oposto.
Utilizando carne de outros mercados, como a Austrália, o Sukiya continuou operando normalmente. Esse movimento não só atraiu clientes órfãos da concorrência, como consolidou a imagem da empresa como mais resiliente e estratégica.
Zensho: mais do que uma empresa de restaurantes
Por trás do Sukiya está a Zensho Holdings, uma estrutura muito mais complexa do que uma simples rede de fast food. Ogawa construiu a empresa com uma ideia pouco comum no setor: controlar toda a cadeia alimentar.
Ao longo dos anos, a Zensho passou a integrar produção agrícola, processamento de alimentos, logística e distribuição, além da operação dos restaurantes. Esse modelo verticalizado permite reduzir custos, manter preços baixos e operar em escala global.
Não por acaso, a empresa se autodefine como uma “infraestrutura alimentar”.
Um império global com milhares de lojas
Hoje, a Zensho é uma potência internacional, com mais de 15 mil restaurantes e cerca de 195 mil funcionários no mundo.
Embora o Sukiya seja sua marca mais famosa — com mais de 2.000 unidades só no Japão — o grupo vai muito além.
A empresa opera diversas redes, como Nakau, Coco’s, Big Boy, Hama Sushi e até marcas internacionais como YO! Sushi. Essa diversificação permitiu à Zensho crescer de forma consistente e ocupar diferentes nichos do mercado alimentício.
Sua presença já se estende por Ásia, América Latina, Estados Unidos e Europa.

O primeiro império de restaurantes do Japão a ultrapassar ¥1 trilhão
Sob a liderança de Ogawa, a Zensho atingiu um marco histórico: tornou-se a primeira empresa do setor de restaurantes no Japão a ultrapassar ¥1 trilhão em receita anual.
Esse feito não apenas consolidou sua liderança, mas também mostrou que o modelo criado por ele — baseado em escala, controle e eficiência — poderia competir globalmente.
Entre ambição social e realidade corporativa
Ogawa não via sua empresa apenas como um negócio.
Seu objetivo declarado era ambicioso: acabar com a fome e a pobreza através da alimentação acessível. Essa visão guiou a expansão agressiva da Zensho e sua obsessão por preços baixos.
Mas o crescimento também trouxe desafios.
Ao longo dos anos, a empresa enfrentou críticas relacionadas a condições de trabalho e, mais recentemente, problemas de segurança alimentar que chegaram a impactar sua imagem. Ainda assim, conseguiu manter sua posição dominante no mercado.
O legado de um homem que pensava em escala global
Nos últimos anos, Ogawa já havia passado o comando executivo para seu filho, preparando a sucessão dentro da empresa.
Sua morte, no entanto, marca o fim de uma era.
Ele não apenas criou a maior rede de gyudon do Japão — redefiniu a forma como o país consome comida rápida. Mais do que isso, construiu um sistema capaz de alimentar milhões de pessoas diariamente, dentro e fora do Japão.
De funcionário da Yoshinoya a criador de um império global, Kentaro Ogawa deixa um legado difícil de igualar. E, em cada tigela de gyudon servida hoje, ainda existe um pouco da visão de um homem que decidiu fazer diferente — e venceu.