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Japão Perde o Capitão as vésperas da Copa

Minna Portal junho 12, 2026 8 min 10 visualizações

A Copa do Mundo ainda nem começou para o Japão, mas a seleção já recebeu uma das notícias mais duras possíveis. Wataru Endo, capitão dos Samurai Blue e um dos símbolos da geração comandada por Hajime Moriyasu, está fora do Mundial por causa de uma lesão no pé esquerdo. A decisão foi confirmada pela Associação Japonesa de Futebol, e o impacto vai muito além da simples substituição de um jogador na lista final.

Endo não era apenas mais um nome no meio-campo. Aos 33 anos, o volante do Liverpool representava liderança, experiência internacional e estabilidade emocional para uma seleção que chegava ao torneio tentando transformar ambição em resultado histórico. Desde a Copa anterior, ele havia assumido o papel de capitão em um grupo que já não fala apenas em competir bem, mas em desafiar a barreira psicológica que há décadas acompanha o futebol japonês: passar das oitavas de final e provar que o país pode enfrentar qualquer gigante sem pedir licença.

O problema é que o corpo não respondeu como a vontade queria.

A lesão que não perdoou

Endo passou por cirurgia no pé esquerdo no fim de fevereiro, depois de uma lesão sofrida durante a temporada pelo Liverpool. A esperança da seleção japonesa era que o capitão pudesse se recuperar a tempo, mesmo sem ritmo ideal de jogo. Ele foi convocado, viajou com o grupo e chegou a retornar aos gramados no amistoso de despedida contra a Islândia, em 31 de maio, no Estádio Nacional de Tóquio.

Mas o retorno durou apenas 45 minutos.

Ao sentir novamente o problema, Endo precisou deixar a partida no intervalo. A partir dali, a presença dele na Copa passou a depender de uma corrida contra o tempo, observada de perto pela comissão técnica e pelo departamento médico. Já nos Estados Unidos, onde o Japão montou sua base em Nashville, ele treinou separado do restante do elenco por vários dias. Ainda tentou uma volta parcial aos trabalhos com o grupo, mas a avaliação final indicou que insistir seria arriscado demais.

A decisão coube ao técnico Hajime Moriyasu, com base no relatório médico. Foi uma escolha esportiva, mas também humana. Levar Endo sem plena condição poderia enfraquecer o próprio jogador, desequilibrar o planejamento da equipe e transformar uma liderança em incerteza dentro de campo.

O adeus que ninguém esperava

A notícia ficou ainda mais pesada quando Endo anunciou que também estava se aposentando da seleção japonesa. Em publicação nas redes sociais, ele afirmou que fez tudo o que podia desde a lesão e que não tinha arrependimentos, embora tenha admitido a frustração de não poder disputar o Mundial.

O tom da despedida foi de orgulho, não de derrota. Endo destacou que teve a honra de liderar uma equipe capaz de falar naturalmente sobre o objetivo de vencer uma Copa do Mundo. Essa frase diz muito sobre a mudança de mentalidade do Japão. Durante anos, o país entrou em Mundiais tentando surpreender. Agora, entra querendo se colocar entre as seleções que pensam grande.

A ausência do capitão, portanto, atinge o Japão em dois níveis. Dentro de campo, o time perde um meio-campista de combate, leitura defensiva e disciplina tática. Fora dele, perde uma voz que atravessava gerações, clubes europeus e diferentes momentos da seleção. Endo era o tipo de jogador que raramente aparecia nos lances mais brilhantes, mas frequentemente sustentava o equilíbrio que permitia aos outros brilharem.

Itakura assume a braçadeira

Com o corte de Endo, o zagueiro Ko Itakura, do Ajax, foi escolhido como novo capitão da seleção japonesa. A mudança ocorre em um momento delicado, às vésperas da estreia do Japão contra a Holanda, pelo Grupo F.

Itakura não escondeu o peso emocional da notícia. Ele visitou Endo no quarto após saber da decisão e reconheceu que perder o capitão nesse estágio da preparação “dói”. Ainda assim, a reação do grupo parece caminhar na direção de transformar a baixa em combustível. Segundo Itakura, todos sabiam o quanto Endo havia se dedicado para liderar a equipe até aquele momento.

A escolha de Itakura também tem lógica esportiva. Ele é um defensor experiente, atua no futebol europeu e conhece bem a estrutura montada por Moriyasu. Em uma Copa do Mundo, especialmente contra adversários de alta intensidade, a liderança da defesa pode ser tão importante quanto a liderança do meio-campo. O desafio será assumir a braçadeira sem tentar copiar Endo, mas mantendo a serenidade que o antigo capitão transmitia ao elenco.

Machino entra, mas não substitui Endo

Para ocupar a vaga aberta na lista, o Japão chamou Shuto Machino, atacante do Borussia Mönchengladbach. A entrada de Machino, porém, não significa uma troca direta de função. Endo era um volante de contenção e liderança, enquanto Machino oferece profundidade ofensiva e presença no ataque.

Essa diferença mostra que o corte obrigou Moriyasu a mexer não apenas em nomes, mas também em possibilidades de desenho tático. O treinador pode optar por reorganizar o meio-campo com atletas já convocados, redistribuindo responsabilidades defensivas entre jogadores como Ao Tanaka, Daichi Kamada, Ritsu Doan e outros nomes do setor. Ao mesmo tempo, a entrada de Machino dá mais uma opção para partidas em que o Japão precise buscar resultado ou alterar o ritmo ofensivo.

A questão central é que Endo não era apenas uma peça de posição. Ele era uma peça de controle. Em torneios curtos, esse tipo de jogador vale muito porque reduz o caos. Sem ele, o Japão terá de provar que sua maturidade coletiva é forte o suficiente para sobreviver à perda do principal líder.

Um golpe no projeto de Moriyasu

Hajime Moriyasu chega a esta Copa com uma seleção mais respeitada do que em ciclos anteriores. Depois de vencer Alemanha e Espanha na fase de grupos de 2022, o Japão deixou de ser visto apenas como azarão disciplinado. Passou a ser tratado como uma equipe capaz de machucar favoritos, pressionar alto, alternar sistemas e jogar com coragem.

Mas o Mundial de 2026 também cobra um preço alto. Além de Endo, o elenco japonês já vinha sofrendo com ausências importantes por lesão, incluindo nomes de peso no setor ofensivo. Isso aumenta a responsabilidade sobre jogadores como Takefusa Kubo, Ritsu Doan e Ayase Ueda, que terão de carregar mais protagonismo técnico.

O Japão está no Grupo F, com estreia marcada contra a Holanda, depois enfrenta a Tunísia e encerra a fase inicial contra a Suécia. Não é um caminho simples. A Holanda chega como adversária de peso logo na abertura, enquanto Tunísia e Suécia representam jogos em que concentração, intensidade física e eficiência podem decidir a classificação.

Perder o capitão três dias antes da estreia muda o clima de qualquer concentração. A diferença entre uma equipe madura e uma equipe abalada estará na resposta imediata.

A Copa começa com uma ferida aberta

Endo tentou até o limite. Treinou, voltou, sentiu novamente, esperou avaliação médica e aceitou uma decisão que nenhum capitão gostaria de ouvir. Sua saída deixa uma ferida esportiva e emocional no Japão, mas também entrega ao grupo uma responsabilidade simbólica: jogar a Copa que ele não poderá jogar.

A seleção japonesa chega ao Mundial com menos segurança do que gostaria, mas não necessariamente com menos ambição. A ausência de Endo enfraquece o time, porém também testa aquilo que Moriyasu vem tentando construir há anos: uma equipe que não dependa apenas de uma estrela, mas de uma cultura coletiva forte o bastante para sobreviver a golpes duros.

Agora, a pergunta não é apenas quem vai substituir Endo em campo. A pergunta é se o Japão consegue transformar a perda do capitão em união, intensidade e propósito.

A Copa do Japão começa antes do apito inicial. Começa com uma despedida, uma braçadeira entregue a outro líder e um país inteiro esperando para saber se os Samurai Blue ainda podem fazer história sem o homem que deveria guiá-los.

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