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Rakuten quer sua internet no espaço

Minna Portal junho 25, 2026 8 min 0 visualizações

O plano que pode mudar a disputa dos celulares no Japão

A Rakuten está preparando um movimento que pode transformar a próxima fase da telefonia móvel no Japão. A empresa pretende criar ainda este ano uma joint venture com a norte-americana AST SpaceMobile para comprar, operar e usar satélites próprios em um serviço de comunicação direta com smartphones. A ideia é simples de entender, mas gigantesca em impacto: permitir que celulares comuns se conectem diretamente a satélites, sem depender de torres terrestres em algumas situações.

O plano foi revelado pelo presidente do Rakuten Group, Hiroshi Mikitani, em entrevista ao Nikkei. Segundo ele, a nova empresa terá participação praticamente igual entre Rakuten e AST SpaceMobile, mas a liderança da operação ficará com o grupo japonês. A mensagem por trás da estratégia é clara: a Rakuten não quer apenas revender tecnologia estrangeira, mas participar de uma infraestrutura considerada cada vez mais sensível para a segurança nacional.

Mikitani afirmou que é “extremamente crítico” iniciar um serviço sustentado em grande parte por capital japonês. Essa frase mostra que a disputa não é apenas comercial. Em um país vulnerável a terremotos, tufões, deslizamentos, tsunamis e apagões de infraestrutura, a comunicação por satélite deixou de ser um luxo tecnológico e passou a ser tratada como uma camada de proteção nacional.

Celular conectado mesmo sem antena no chão

A tecnologia chamada de direct-to-mobile, direct-to-cell ou comunicação direta satélite-celular permite que um smartphone comum se conecte a satélites de baixa órbita quando não há sinal terrestre disponível. Em vez de depender de uma torre instalada em montanhas, ilhas remotas, regiões costeiras ou áreas destruídas por desastre, o aparelho passa a buscar conexão no céu.

Esse tipo de serviço ainda está em fase de expansão no mundo, mas já virou uma das frentes mais disputadas entre operadoras. No Japão, a KDDI saiu na frente com o au Starlink Direct, usando a rede Starlink da SpaceX. Depois, SoftBank e NTT Docomo também avançaram com serviços baseados na tecnologia da empresa de Elon Musk. Com isso, as três grandes rivais da Rakuten passaram a se alinhar ao mesmo fornecedor norte-americano.

A Rakuten, por outro lado, escolheu seguir por outro caminho com a AST SpaceMobile. Essa diferença é importante. Enquanto as concorrentes japonesas se apoiam na rede Starlink, a Rakuten quer construir uma operação própria em parceria com a AST, comprando e operando satélites pela nova empresa. Na prática, a companhia tenta transformar uma desvantagem histórica em oportunidade.

A fraqueza da Rakuten pode virar arma

A Rakuten entrou tarde no mercado móvel japonês e ainda enfrenta um desafio que suas rivais conhecem menos: cobertura. A empresa expandiu sua rede nos últimos anos, reduziu perdas e atingiu marcas importantes, mas sua malha de estações-base ainda não é tão madura quanto a de NTT Docomo, KDDI e SoftBank.

Mesmo com planos de investir cerca de 200 bilhões de ienes em infraestrutura neste ano fiscal, levar antenas a regiões rurais, montanhosas e isoladas continua sendo caro e lento. O satélite pode funcionar como uma solução complementar: não substitui totalmente a rede terrestre, mas cobre buracos onde construir torres é difícil, caro ou simplesmente inviável.

Esse ponto é estratégico para a Rakuten. Em vez de correr atrás das rivais apenas pela construção tradicional de antenas, a empresa tenta saltar para uma nova camada de cobertura. Se o plano funcionar, áreas antes consideradas fracas para a operadora podem se tornar vitrines de uma nova geração de conectividade.

Internet do espaço começa no fim de 2026

Segundo Mikitani, o serviço será lançado em fases a partir do fim de 2026, com cobertura nacional prevista para o ano fiscal de 2027. A ambição não para no Japão. O executivo também mencionou a possibilidade de uma expansão global por meio da nova empresa, embora essa etapa dependa de satélites, licenças, acordos regulatórios e capacidade operacional.

A Rakuten e a AST SpaceMobile não começaram essa parceria agora. As duas empresas já mantêm uma relação estratégica desde 2020. Em 2024, a Rakuten Mobile anunciou o objetivo de oferecer no Japão um serviço de banda larga móvel via satélite diretamente em smartphones comuns, incluindo não apenas mensagens de texto, mas também chamadas de voz, chamadas de vídeo e uso de dados. Em 2025, as empresas realizaram no Japão um teste de videochamada conectando smartphones comerciais diretamente a satélites de baixa órbita, um marco importante para provar que a tecnologia pode sair do laboratório e se aproximar do uso real.

A AST SpaceMobile também tem acordos com mais de 50 operadoras móveis no mundo. Esse detalhe mostra que a empresa não é apenas uma aposta isolada da Rakuten, mas uma das grandes candidatas globais a disputar o mercado de internet espacial para celulares comuns.

Governo japonês entra na disputa dos satélites

O plano da Rakuten acontece em um momento em que o governo japonês também quer fortalecer sua infraestrutura espacial. O Japão está promovendo o desenvolvimento de comunicações por satélite com base doméstica e prevê subsídios de 150 bilhões de ienes para aquisição de equipamentos e lançamentos de constelações de satélites.

Mikitani afirmou que a Rakuten se candidatou a esse projeto subsidiado. Caso consiga apoio estatal, a empresa poderia reduzir parte do peso financeiro de uma operação que exige satélites, lançamentos, estações terrestres, licenças e integração com redes móveis.

Mesmo assim, o presidente da Rakuten tentou minimizar o impacto financeiro imediato. Ele disse que o investimento “não será substancial” e que não deve impor um peso excessivo ao grupo. Essa fala é relevante porque a Rakuten passou anos sob pressão por causa dos altos custos de sua entrada no mercado móvel. A empresa finalmente alcançou EBITDA positivo no negócio de telefonia no ano fiscal de 2025 e chegou a 10 milhões de assinaturas móveis em dezembro, dois sinais de que a operação começou a ganhar fôlego.

A batalha contra Starlink no Japão

A disputa que se desenha agora é quase cinematográfica: de um lado, KDDI, SoftBank e Docomo usando tecnologia da Starlink; do outro, a Rakuten tentando criar uma alternativa com a AST SpaceMobile e uma estrutura de capital mais japonesa. Não é apenas uma competição por clientes. É uma corrida para definir quem controlará a próxima camada de comunicação do país.

A Starlink já tem vantagem por sua constelação enorme e pela força da SpaceX no mercado espacial. A AST, por sua vez, aposta em satélites desenhados especificamente para comunicação direta com smartphones comuns, prometendo uma experiência mais próxima de banda larga móvel. Mas o desafio é enorme: para oferecer cobertura contínua, empresas desse setor precisam lançar e operar muitos satélites, garantir estabilidade de sinal, controlar custos e atender regras de espectro em cada país.

A Rakuten está tentando entrar nessa corrida antes que o mercado fique totalmente dominado por rivais maiores. Se esperar demais, pode acabar dependente das mesmas estruturas que seus concorrentes já usam. Ao formar uma joint venture própria, a empresa tenta reservar espaço em um setor que pode se tornar tão essencial quanto as torres de celular foram nas últimas décadas.

Por que isso importa para quem vive no Japão

Para o usuário comum, a promessa é direta: menos áreas sem sinal. Isso pode fazer diferença em viagens por montanhas, ilhas, estradas rurais, regiões costeiras e áreas afetadas por desastres naturais. Em situações extremas, quando torres caem, cabos são rompidos ou a energia falha, a conexão via satélite pode manter mensagens, chamadas e serviços básicos funcionando.

Mas ainda é cedo para tratar o serviço como uma revolução garantida. A cobertura, a velocidade, os aparelhos compatíveis, o preço e os limites de uso ainda precisam ficar claros. Também é provável que, no início, o serviço seja oferecido em fases, com funções mais limitadas e expansão gradual.

Mesmo com essas incertezas, a direção é evidente. A telefonia móvel está deixando de ser uma rede apenas terrestre. O Japão, por sua geografia e seus riscos naturais, é um dos países onde essa mudança faz mais sentido. A Rakuten sabe que não lidera o mercado tradicional de antenas, mas quer disputar a próxima fronteira: transformar satélites em torres invisíveis no céu.

Se der certo, a empresa que chegou atrasada ao mercado móvel japonês pode se tornar uma das protagonistas da internet espacial no país. E, em um Japão onde perder sinal pode significar perder contato em momentos críticos, essa corrida já deixou de ser apenas sobre tecnologia. Passou a ser sobre sobrevivência, soberania e quem controlará a comunicação quando o chão falhar.

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