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Nvidia volta ao Japão para pagar uma dívida histórica

Minna Portal julho 16, 2026 7 min 4 visualizações

A visita de Jensen Huang ao Japão não foi apenas mais uma parada internacional do fundador da Nvidia para anunciar chips, servidores e projetos de inteligência artificial. Em Tóquio, o executivo aproveitou o momento para renovar uma aposta estratégica no país, aproximando-se de algumas das maiores empresas japonesas de tecnologia, robótica, indústria pesada e saúde.

Mas o momento mais simbólico aconteceu longe dos grandes centros de dados. Em uma antiga casa de fliperamas da Sega, em Akihabara, Huang agradeceu publicamente à companhia japonesa por uma decisão tomada há cerca de 30 anos. Quando a Nvidia ainda era uma startup ameaçada pelo fracasso, um investimento de US$ 5 milhões aprovado pela Sega ajudou a manter a empresa viva.

Agora, uma das companhias mais influentes da era da inteligência artificial retorna ao Japão não apenas para recordar o passado, mas para tentar construir no país uma das maiores plataformas industriais de IA do mundo.

A dívida de Jensen Huang com a Sega

Em meados da década de 1990, a Nvidia ainda estava distante da posição que ocupa atualmente. A empresa, fundada em 1993, desenvolvia chips gráficos em um mercado altamente competitivo e apostava em uma tecnologia de renderização baseada em superfícies curvas.

Essa arquitetura foi utilizada no NV1, um dos primeiros chips da companhia, mas acabou ficando incompatível com o caminho escolhido pelo restante da indústria. A Microsoft passou a promover o Direct3D, baseado principalmente em polígonos triangulares, que se tornariam o padrão dos jogos tridimensionais.

Naquele período, a Nvidia trabalhava com a Sega no desenvolvimento de tecnologia gráfica para um novo console. Porém, quando ficou claro que a arquitetura não seria adequada para o projeto que posteriormente daria origem ao Dreamcast, a parceria entrou em crise.

Jensen Huang sabia que continuar desenvolvendo o chip errado poderia levar a Nvidia à falência. Abandonar o projeto, por outro lado, também significaria perder o dinheiro necessário para manter a empresa funcionando.

Shoichiro Irimajiri, então importante executivo da Sega e posteriormente presidente da companhia, decidiu apoiar Huang mesmo depois do fracasso técnico. A Sega investiu aproximadamente US$ 5 milhões na Nvidia, dando à startup cerca de seis meses para mudar sua arquitetura e tentar desenvolver um novo produto.

Esse período permitiu que a empresa criasse o RIVA 128, lançado em 1997 e considerado um dos produtos responsáveis por colocar a Nvidia novamente na disputa pelo mercado de gráficos para computadores. Em 1999, a empresa lançaria a GeForce 256, apresentada como a primeira GPU do mundo, iniciando uma transformação que décadas depois chegaria à inteligência artificial.

O reencontro no coração de Akihabara

Em 15 de julho de 2026, Jensen Huang retornou ao local onde funcionava uma das mais conhecidas casas de jogos da Sega em Akihabara, atualmente operada como GiGO Akihabara 3.

Ao lado do CEO da Sega, Haruki Satomi, do diretor de operações Shuji Utsumi, do criador de Virtua Fighter, Yu Suzuki, e do ex-presidente Shoichiro Irimajiri, Huang celebrou mais de três décadas de relacionamento entre as empresas.

Durante o evento, a Nvidia e a Sega anunciaram que Virtua Fighter Crossroads e outros futuros títulos da desenvolvedora japonesa terão suporte ao RTX Spark, nova plataforma da Nvidia voltada a notebooks finos e computadores compactos capazes de executar jogos, criação de conteúdo e aplicações de IA.

A parceria também resgata uma conexão tecnológica antiga. O chip NV1, apesar de não ter conseguido se tornar o componente principal de um console da Sega, foi utilizado na versão para PC do primeiro Virtua Fighter, um dos títulos que ajudaram a popularizar os jogos de luta tridimensionais.

Ao agradecer à Sega e a Irimajiri, Huang reconheceu que a história da Nvidia poderia ter terminado antes mesmo da criação da GPU. A homenagem transformou o evento em algo maior do que uma campanha comercial: foi o reconhecimento público de uma decisão empresarial que alterou o futuro da computação.

A nova aposta da Nvidia no Japão

A visita, entretanto, não ficou limitada ao setor de games. A Nvidia apresentou uma ampla rede de projetos que coloca o Japão no centro de sua estratégia para a chamada “IA física”, na qual sistemas inteligentes deixam as telas e passam a controlar robôs, veículos, equipamentos médicos e instalações industriais.

A Fujitsu liderará uma iniciativa que reúne fabricantes como Fanuc, Yaskawa Electric e Kawasaki Heavy Industries. O objetivo é desenvolver robôs capazes de interpretar ambientes, tomar decisões e trabalhar com maior autonomia ao lado de seres humanos em fábricas, hospitais e outros espaços.

Para Jensen Huang, o Japão possui uma combinação especialmente valiosa: experiência industrial, tradição de melhoria contínua e algumas das empresas de robótica mais avançadas do planeta. Essa base poderá ser utilizada para criar máquinas que não apenas repetem movimentos programados, mas compreendem situações e adaptam suas ações.

A Kawasaki Heavy Industries também anunciou o desenvolvimento conjunto de robôs com IA para estaleiros. As máquinas deverão atuar em tarefas como soldagem, pintura, inspeção e movimentação de materiais, dentro de um projeto de estaleiro digital que utilizará inteligência artificial e gêmeos digitais.

Essa automação ganha importância diante da escassez de trabalhadores no Japão. A construção naval e outros setores da indústria pesada enfrentam o envelhecimento de suas equipes, dificuldades de recrutamento e a necessidade de transmitir conhecimentos técnicos antes dominados por profissionais experientes.

IA também chega aos hospitais japoneses

A expansão da Nvidia alcança ainda o sistema de saúde. A Kawasaki pretende utilizar plataformas como Holoscan IGX, Isaac for Healthcare, Isaac GR00T e Cosmos para desenvolver funções de apoio cirúrgico, assistência de enfermagem e transporte dentro de hospitais.

A Canon começou a fornecer um sistema japonês de tomografia computadorizada por contagem de fótons acelerado por tecnologia da Nvidia. A Fujifilm, por sua vez, comercializou um equipamento de tomografia de corpo inteiro baseado na arquitetura Blackwell, utilizando aprendizado profundo para melhorar a reconstrução e a qualidade das imagens.

Empresas farmacêuticas como Astellas, Daiichi Sankyo, Ono Pharmaceutical e Takeda também estão incorporando plataformas de inteligência artificial em pesquisas de medicamentos. Segundo a Nvidia, esses sistemas podem acelerar a análise de moléculas, a triagem virtual de compostos e a previsão de estruturas biológicas.

A mensagem da companhia é clara: a IA no Japão não deverá permanecer limitada a chatbots ou ferramentas digitais. Ela será incorporada a máquinas, fábricas, veículos, laboratórios e hospitais.

Japão quer recuperar espaço na corrida tecnológica

Embora seja reconhecido mundialmente por seus automóveis, equipamentos eletrônicos e robôs industriais, o Japão passou a ser visto como um país atrasado na corrida recente da inteligência artificial generativa, especialmente em comparação com Estados Unidos e China.

A resposta japonesa está sendo construída por meio de investimentos em semicondutores, centros de dados, modelos nacionais de IA e infraestrutura computacional. Um dos projetos anunciados durante a visita de Huang prevê uma instalação com 27.500 GPUs Nvidia Rubin, destinada a oferecer capacidade de processamento para empresas japonesas e sistemas de robótica.

A Nvidia enxerga uma oportunidade rara. Enquanto os Estados Unidos dominam os modelos de inteligência artificial e a China desenvolve rapidamente sua própria infraestrutura, o Japão possui algo que poucos países conseguem reproduzir: uma enorme base industrial capaz de transformar algoritmos em máquinas reais.

É justamente nesse encontro entre software americano e engenharia japonesa que Jensen Huang parece fazer sua próxima grande aposta.

Trinta anos atrás, a Sega colocou US$ 5 milhões em uma pequena empresa que havia escolhido a tecnologia errada. Em 2026, essa empresa retorna ao Japão como fornecedora das ferramentas que poderão definir o futuro da robótica, da medicina, dos automóveis e da indústria.

A dívida histórica foi agradecida em Akihabara. A nova parceria, entretanto, está apenas começando.

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