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Cotidiano

Japão ressuscita a noite sobre trilhos

Minna Portal julho 18, 2026 7 min 5 visualizações

Luna Azul começa a tomar forma e promete transformar uma viagem de 15 horas em uma experiência de luxo a partir de 2027

O Japão construiu sua reputação ferroviária em torno da velocidade, da precisão e da eficiência. No entanto, o próximo grande projeto da JR East seguirá exatamente na direção contrária: viajar devagar, atravessar a madrugada e devolver ao passageiro o prazer de observar o país pela janela.

Batizado de Luna Azul, o novo trem noturno da companhia começa a ganhar forma para entrar em operação no início do ano fiscal de 2027. A proposta é ligar Tóquio ao norte do Japão durante a noite, em uma viagem que poderá durar até 15 horas, oferecendo cabines privadas, espaços para dormir e um lounge panorâmico.

O nome, que significa “lua azul” em espanhol, foi escolhido para representar o conjunto de cores externas do trem, a sensação de conforto e a ideia de uma experiência distante da rotina diária. O projeto também resgata a memória dos tradicionais blue trains, os antigos trens-leito que cruzaram o Japão durante décadas antes de desaparecerem quase completamente com a expansão do shinkansen e das companhias aéreas de baixo custo.

Uma viagem noturna entre Shinagawa e Aomori

Entre a primavera e o outono, o Luna Azul deverá operar duas viagens de ida e volta por semana entre Shinagawa, em Tóquio, e Aomori, no extremo norte da ilha principal japonesa.

O trem seguirá pelas linhas Joetsu e Uetsu, passando pela costa do Mar do Japão. Na viagem rumo ao norte, a previsão inicial é de partida por volta das 21h e chegada a Aomori aproximadamente às 9h30 do dia seguinte. No sentido contrário, o trem deverá deixar Aomori por volta das 16h e chegar a Tóquio perto das 7h.

Dependendo do horário e das condições da rota, a viagem levará entre 12 horas e meia e 15 horas. O percurso deverá incluir paradas em cidades como Ueno, Omiya, Takasaki, Akita, Hirosaki e Shin-Aomori, embora o calendário definitivo e os horários detalhados ainda não tenham sido divulgados.

Não se trata apenas de oferecer uma alternativa lenta ao avião ou ao trem-bala. A JR East quer transformar o próprio deslocamento em parte central da viagem. O passageiro embarcará à noite, poderá descansar em uma cabine privada, observar as luzes das cidades pelo caminho e despertar diante das paisagens rurais do norte japonês.

Um trem antigo completamente transformado

O Luna Azul não será construído do zero. A JR East utilizará uma composição da série E657, atualmente empregada principalmente nos serviços expressos da Linha Joban, e fará uma remodelação completa de seus dez vagões.

A companhia já havia anunciado em 2025 que o trem seria convertido em uma composição formada exclusivamente por cabines privadas da categoria Green Car. O plano inicial previa aproximadamente 120 passageiros, mas a configuração agora apresentada indica capacidade de 125 pessoas durante as viagens noturnas.

Durante a madrugada, cada cabine poderá receber de uma a quatro pessoas. Alguns espaços terão superfícies planas semelhantes a camas, permitindo que os passageiros se deitem durante o trajeto.

As opções mais sofisticadas serão chamadas de Luna Premium e Luna Premium Wide. A cabine Premium Wide deverá ter uma área plana de aproximadamente dois metros de largura por 1,90 metro de comprimento. Também haverá as categorias Luna Comfort, Comfort Wide e Comfort Grande, esta última preparada para grupos de até quatro passageiros durante o serviço noturno.

O quinto vagão será ocupado pelo Luna Vista Lounge, um espaço compartilhado onde os passageiros poderão conversar, consumir bebidas e observar a mudança da paisagem durante a noite e nas primeiras horas da manhã. A composição também contará com uma área de vendas de bebidas e pequenos lanches.

No sexto vagão, a JR East prevê duas cabines acessíveis para usuários de cadeira de rodas, uma individual e outra preparada para duas pessoas.

No inverno, o Luna Azul muda completamente de função

O novo trem terá duas personalidades. Quando chegar o inverno, a composição deixará de operar como um serviço noturno para Aomori e será utilizada como trem turístico diurno entre Shinagawa e Naganohara-Kusatsuguchi, uma das principais portas de entrada para a região de Kusatsu Onsen, em Gunma.

Nessa época do ano, o serviço deverá realizar seis viagens de ida e volta por semana. A viagem levará entre duas horas e meia e três horas, com partidas previstas de Shinagawa por volta das 10h e retorno de Naganohara-Kusatsuguchi por volta das 16h30.

Para esse trecho, o Luna Azul operará com apenas sete vagões e capacidade de aproximadamente 150 passageiros. As cabines também poderão transportar mais pessoas durante o dia, já que não precisarão ser configuradas prioritariamente como espaços para dormir.

A estratégia permite que a JR East utilize o trem durante praticamente todo o ano e adapte o serviço às características de cada estação. No verão, a atração será atravessar a madrugada rumo a Aomori. No inverno, o objetivo será transportar turistas em direção às montanhas, às fontes termais e às paisagens cobertas de neve de Gunma.

O luxo terá um preço próximo ao shinkansen

Os valores definitivos ainda não foram anunciados. A JR East informou, porém, que uma viagem entre Shinagawa e Aomori em uma cabine Green deverá custar aproximadamente o valor de uma passagem na classe Green do Tohoku Shinkansen, acrescido de um valor adicional.

Como referência, a companhia citou o preço de 24.180 ienes para uma viagem de ida entre Tóquio e Shin-Aomori no Hayabusa, em período regular. Isso indica que o Luna Azul não será um meio de transporte econômico, mas também não deverá alcançar os preços extremamente elevados dos trens de cruzeiro mais exclusivos do Japão.

A venda deverá ocorrer inicialmente por meio de pacotes turísticos. Datas de operação, tarifas exatas, serviços de bordo e regras de reserva serão divulgados posteriormente.

O retorno de uma cultura que quase desapareceu

Durante grande parte do século passado, dormir em um trem fazia parte do imaginário ferroviário japonês. Serviços como o Hokutosei, o Cassiopeia e o Akebono permitiam atravessar grandes distâncias enquanto o passageiro descansava. Com a chegada dos trens-bala, dos voos baratos e dos ônibus noturnos, essas rotas foram gradualmente encerradas.

Hoje, o Sunrise Seto e o Sunrise Izumo permanecem entre os poucos trens-leito regulares do país. Por isso, a chegada do Luna Azul representa mais do que o lançamento de uma nova composição. Ela mostra que existe novamente uma demanda por viagens em que o tempo não é visto apenas como algo a ser reduzido.

O trem-bala continuará sendo a melhor escolha para quem precisa chegar rapidamente. O Luna Azul tentará conquistar quem deseja transformar o caminho em parte das férias, dormir sobre os trilhos e acordar diante de uma região diferente do Japão.

Em um país que passou décadas tentando encurtar distâncias, o novo luxo poderá ser justamente ter tempo para percorrê-las.

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