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Kazu é Imortal e continua marcando aos 59 anos

Minna Portal julho 26, 2026 7 min 5 visualizações

Aos 59 anos, Kazuyoshi Miura volta a marcar em uma partida oficial, conduz o Fukushima United à Copa do Imperador e transforma um simples toque na bola em mais um capítulo extraordinário do futebol japonês.

Um gol que atravessou gerações

Durante alguns segundos, a idade deixou de importar. A chuva caía sobre o gramado do Toho Minna no Stadium, na província de Fukushima, quando Kazuyoshi Miura avançou para dentro da área, acompanhando uma jogada construída pelo lado direito.

Aos sete minutos do segundo tempo, o jovem Takatora Einaga, de 23 anos, chegou à linha de fundo e cruzou rasteiro. Miura antecipou-se à marcação e, sem precisar dominar a bola, finalizou de primeira com o pé direito.

A rede balançou.

Era o quinto gol do Fukushima United na vitória por 7 a 0 sobre o Iwaki Furukawa FC, na decisão que definiu o representante da província na Copa do Imperador. Para a classificação da equipe, o lance foi apenas parte de uma goleada. Para o futebol japonês, foi um momento histórico.

Miura marcou aos 59 anos e quase cinco meses, depois de começar a partida como titular e capitão. Seu último gol oficial havia sido registrado em novembro de 2022, quando ainda defendia o Suzuka Point Getters. Foram 1.351 dias sem marcar em uma competição oficial.

O corpo envelhece, mas o atacante permanece

O lance não foi uma cobrança de pênalti organizada para homenagear uma celebridade, nem uma participação simbólica nos minutos finais de um amistoso. Miura começou a partida, enfrentou a chuva, acompanhou o ataque e apareceu exatamente onde um centroavante deveria estar.

A jogada ajuda a explicar por que Kazu continua recebendo oportunidades mesmo em uma idade na qual praticamente todos os jogadores já deixaram os gramados há décadas. Sua velocidade e capacidade física naturalmente não são as mesmas do auge, mas sua leitura de espaço permanece intacta.

Miura percebeu o momento do passe, atacou a região entre os defensores e finalizou antes que a marcação pudesse reagir. Foi um gol simples em aparência, porém construído por quatro décadas de experiência profissional.

O próprio perfil do atacante no Fukushima United aponta o jogo de primeira como uma de suas principais qualidades. Contra o Iwaki Furukawa, essa característica voltou a aparecer de maneira decisiva.

Um novo começo aos 59 anos

A história ganhou ainda mais significado porque foi o primeiro gol de Miura desde sua chegada ao Fukushima United.

O atacante pertence ao Yokohama FC, mas foi emprestado ao clube de Fukushima no final de 2025. A transferência representou seu retorno ao sistema da J.League depois de cinco anos e também sua primeira experiência em uma equipe da terceira divisão japonesa.

Durante a primeira parte de 2026, Kazu participou de seis partidas, quatro delas como titular, somando 86 minutos em campo. Mesmo sem marcar, o Fukushima decidiu prolongar o empréstimo até 30 de junho de 2027.

Ao anunciar a renovação, Miura afirmou que continuaria alimentando sua paixão pelo futebol e trabalhando para contribuir com o objetivo do clube de conquistar o acesso à J2. Menos de um mês depois, mostrou que sua presença poderia produzir mais do que repercussão comercial ou inspiração para os jogadores mais jovens.

Quatro décadas diante do mesmo gol

Kazuyoshi Miura começou sua carreira profissional em 1986, no Brasil. Ainda adolescente, deixou o Japão em busca de uma oportunidade em um país onde o futebol possuía uma estrutura e uma tradição muito mais desenvolvidas.

Passou por equipes brasileiras como Santos, Palmeiras, Coritiba, CRB, Matsubara e XV de Jaú antes de retornar ao Japão. Também defendeu clubes na Itália, Croácia, Austrália e Portugal. Quando Miura iniciou sua trajetória profissional, a J.League sequer existia. O campeonato japonês moderno seria criado somente em 1993, ano em que ele se tornaria o primeiro jogador eleito o mais valioso da nova competição.

Com a seleção japonesa, disputou 89 partidas e marcou 55 gols entre 1990 e 2000. Foi uma das figuras centrais da transformação do futebol no país, ajudando a aproximar o público de uma modalidade que ainda buscava seu espaço no cenário esportivo nacional.

O contraste com seus companheiros atuais é impressionante. O jogador que deu a assistência para o gol em Fukushima nasceu 36 anos depois de Miura. Muitos atletas que hoje dividem o vestiário com Kazu cresceram assistindo a vídeos de uma carreira que já parecia histórica antes mesmo de eles aprenderem a chutar uma bola.

A comemoração que não aconteceu

O gol também chamou atenção por aquilo que veio depois dele. Miura ficou conhecido por comemorar seus gols com a chamada “Kazu Dance”, uma sequência de movimentos que se tornou parte de sua imagem desde os primeiros anos da J.League. Em Fukushima, entretanto, ele não realizou a dança completa.

Cercado pelos companheiros, comemorou com os braços abertos e recebeu os abraços de uma equipe formada, em grande parte, por jogadores que poderiam ser seus filhos. A cena foi suficiente para provocar uma enorme reação nas redes sociais.

A publicação do Fukushima United anunciando o gol acumulou cerca de quatro milhões de visualizações em aproximadamente cinco horas, além de dezenas de milhares de curtidas. Entre os comentários, torcedores brincaram dizendo que Miura era um jovem promissor e que poderia ter um futuro brilhante no futebol.

A ironia funcionou porque, de certa maneira, Kazu continua se comportando como alguém que ainda possui alguma coisa para conquistar.

Mais do que uma curiosidade esportiva

É fácil transformar a permanência de Miura no futebol em uma simples excentricidade. Ele joga poucos minutos, está distante de seu melhor nível e não disputa atualmente a elite do campeonato japonês.Ainda assim, reduzir sua carreira a uma curiosidade sobre longevidade seria ignorar o significado de sua presença.

Kazu segue treinando diariamente ao lado de atletas muito mais jovens, submetendo-se às mesmas cobranças físicas, às viagens, às concentrações e à competição por espaço. Sua permanência não acontece apenas porque ele deseja continuar. Depende também de treinadores e clubes considerarem que sua disciplina, seu conhecimento e sua influência ainda oferecem valor ao elenco.

O futebol profissional costuma tratar jogadores como produtos com prazo de validade. Aos 30 anos, muitos começam a ser chamados de veteranos. Aos 35, precisam justificar constantemente a própria continuidade. Miura chegou aos 59 recusando a ideia de que outra pessoa possa determinar quando sua paixão deve terminar.

O Rei ainda está em campo

O gol contra o Iwaki Furukawa não mudará a história da Copa do Imperador e provavelmente não será lembrado pela dificuldade técnica. Seu valor está no caminho percorrido até que aquela bola encontrasse a rede.

Miura marcou depois de quase quatro anos sem gols oficiais, em sua 41ª temporada como profissional, representando uma cidade que ainda busca crescer dentro do futebol japonês. No momento decisivo, ele não apareceu como uma atração nostálgica, mas como atacante.

Em fevereiro de 2027, Kazu completará 60 anos. Seu empréstimo com o Fukushima United está previsto para continuar além dessa data, o que abre a possibilidade de o Japão assistir a um jogador sexagenário disputando oficialmente uma competição da J.League.

Não há garantia de que isso acontecerá. No futebol, lesões, decisões técnicas e mudanças contratuais podem encerrar rapidamente qualquer plano. Por enquanto, porém, Kazuyoshi Miura continua correndo. E, quando a bola chega à área, o Rei Kazu ainda sabe exatamente onde deve estar.

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