junho 23, 2026 | terça-feira
News

Japão volta a falar com o Mercosul – Acordo em breve?

Minna Portal junho 23, 2026 8 min 13 visualizações

A mesa que pode mudar o comércio entre Japão e América do Sul

O Japão e o Mercosul voltaram a colocar sobre a mesa uma conversa que pode redesenhar parte importante do comércio entre a Ásia e a América do Sul. Em meio a um cenário global marcado por disputas comerciais, busca por segurança energética e reorganização das cadeias de suprimento, Tóquio e o bloco sul-americano caminham para iniciar negociações formais de um Acordo de Parceria Econômica, conhecido pela sigla EPA.

O movimento ganhou força depois do encontro entre a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi e o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, realizado em 16 de junho, à margem da cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na França. Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Japão, os dois líderes reconheceram o avanço das conversas iniciadas no fim de 2025 dentro do chamado Marco de Parceria Estratégica Japão-Mercosul e anunciaram a intenção de lançar as negociações formais durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, prevista para ocorrer em Assunção até o fim de junho.

A notícia não é apenas mais uma rodada diplomática distante do cotidiano. Ela envolve alimentos, energia, minerais estratégicos, carros, máquinas, tecnologia e investimentos. Também toca diretamente em uma comunidade com peso histórico: a população de origem japonesa na América do Sul, especialmente no Brasil, onde está a maior comunidade nikkei do mundo fora do Japão.

Por que o Japão está olhando agora para o Mercosul

O interesse japonês não surge do nada. Nos últimos anos, o Japão tem buscado reduzir riscos em suas cadeias de suprimento, diversificar parceiros comerciais e garantir acesso mais estável a recursos essenciais. Em um mundo onde conflitos regionais, tarifas, tensões entre grandes potências e choques de energia podem afetar preços e abastecimento, depender de poucos fornecedores se tornou uma vulnerabilidade.

O Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, aparece nesse contexto como uma região de grande peso agrícola, energético e mineral. Para o Japão, que importa grande parte dos recursos que consome, uma aproximação mais estruturada com o bloco pode representar acesso mais seguro a alimentos, matérias-primas, combustíveis e minerais críticos.

A JETRO, órgão japonês de comércio exterior, destacou que o Brasil responde por mais de 70% do PIB dos quatro membros tradicionais do Mercosul, mas ainda mantém uma participação relativamente pequena no comércio com o Japão. Em 2025, apenas 1,6% das exportações brasileiras tiveram o Japão como destino, enquanto os produtos japoneses representaram 2,2% das importações brasileiras. Esses números mostram que, apesar da longa relação histórica entre os dois países, ainda existe um espaço grande para crescimento econômico.

Carros japoneses, alimentos sul-americanos e minerais raros

Um acordo entre Japão e Mercosul poderia abrir caminho para a redução de tarifas e a facilitação de investimentos. Para o Japão, uma das prioridades seria ampliar as exportações de automóveis, autopeças, máquinas industriais e outros produtos de alto valor agregado. Para os países sul-americanos, o interesse estaria ligado ao aumento das vendas de alimentos, energia, minerais e produtos agrícolas para o mercado japonês.

O caso do Brasil é especialmente relevante. O país é o maior produtor mundial de nióbio, um metal raro usado na fabricação de aços especiais e materiais de alta resistência. O nióbio é essencial para setores como construção, transporte, energia e indústria pesada. Segundo a JETRO, o Brasil responde por mais de 90% da produção mundial desse mineral, o que torna o país um parceiro estratégico para qualquer economia industrial avançada.

Além disso, o Brasil tem ampliado sua produção de petróleo. Em 2025, a produção brasileira chegou a 4,655 milhões de barris por dia, segundo dados citados pela JETRO com base na Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos. Para o Japão, que precisa importar energia e busca alternativas em meio à instabilidade internacional, essa combinação de petróleo, gás e minerais críticos torna o Mercosul mais importante do que parecia alguns anos atrás.

A corrida comercial já começou

O Japão não está sozinho nessa aproximação com o Mercosul. A União Europeia avançou em seu próprio acordo comercial com o bloco depois de décadas de negociações, e a aplicação provisória de partes comerciais do pacto começou em maio de 2026. Esse avanço europeu aumentou a pressão sobre outros países industrializados que não querem perder espaço na América do Sul.

A Keidanren, principal federação empresarial do Japão, comemorou o avanço das conversas e afirmou que o Mercosul é uma grande zona econômica, com cerca de 300 milhões de habitantes e PIB em torno de 3 trilhões de dólares. A entidade também lembrou que aproximadamente mil empresas japonesas já operam na região, o que reforça a importância de um acordo capaz de dar mais previsibilidade para investimentos, comércio e produção.

Ao mesmo tempo, a própria dinâmica do Mercosul mudou. O bloco vem tentando expandir sua rede de acordos comerciais e diversificar seus parceiros. Nos últimos anos, houve avanços com Singapura, EFTA e conversas retomadas ou reativadas com países como Canadá, Coreia do Sul e Indonésia. Para os países sul-americanos, negociar com o Japão significa reduzir a dependência de poucos mercados e fortalecer sua presença na Ásia.

Nem tudo será simples na negociação

Apesar do entusiasmo inicial, um acordo desse tipo dificilmente será concluído rapidamente. Negociações comerciais envolvem setores sensíveis, tarifas, regras de origem, padrões sanitários, proteção ambiental, acesso a mercados e compromissos de investimento. O próprio comunicado conjunto entre Japão e Mercosul reconhece que cada lado tem áreas de interesse e também áreas de sensibilidade que precisarão ser tratadas com cuidado.

No Japão, setores agrícolas podem acompanhar a negociação com cautela, especialmente se houver maior abertura para produtos sul-americanos. No Mercosul, indústrias locais podem se preocupar com a concorrência de bens japoneses de maior tecnologia. Esse equilíbrio entre abertura e proteção costuma ser o ponto mais difícil de qualquer acordo comercial amplo.

Mesmo assim, o momento político parece favorável. O Japão quer reforçar sua segurança econômica, o Brasil busca ampliar o peso internacional do Mercosul, e o bloco sul-americano tenta se reposicionar em um mundo onde acordos regionais voltaram a ter peso estratégico.

O impacto para brasileiros e estrangeiros no Japão

Para a comunidade brasileira no Japão, esse tipo de acordo pode parecer distante, mas seus efeitos podem aparecer de forma concreta ao longo dos anos. Uma aproximação econômica mais forte pode ampliar oportunidades de negócios, importação de produtos, investimentos, intercâmbio empresarial e até novas pontes entre pequenas empresas nos dois lados do oceano.

Empreendedores brasileiros no Japão, especialmente aqueles que trabalham com alimentos, comércio internacional, serviços para estrangeiros, logística, turismo e produtos culturais, podem se beneficiar se as relações comerciais entre Japão e Mercosul se tornarem mais fluidas. Ainda é cedo para prever efeitos diretos, mas acordos econômicos costumam criar ambientes mais favoráveis para novas iniciativas.

Também há um componente simbólico. Brasil e Japão têm uma relação construída por mais de um século de imigração, famílias divididas entre os dois países, comunidades nikkei e brasileiros vivendo no arquipélago. Um acordo comercial não resolve sozinho os desafios de integração, trabalho e vida dos estrangeiros no Japão, mas pode fortalecer uma ponte que já existe há gerações.

Uma negociação que vai além das tarifas

A retomada das conversas entre Japão e Mercosul mostra que o comércio internacional deixou de ser apenas uma questão de preço. Hoje, acordos econômicos também significam segurança, energia, minerais estratégicos, alimentos, tecnologia e influência geopolítica.

O Japão quer garantir parceiros confiáveis em uma época instável. O Mercosul quer transformar seu peso agrícola, mineral e energético em mais poder de negociação. Entre os dois lados, existe uma história antiga, uma comunidade humana profunda e uma oportunidade econômica que ainda foi pouco explorada.

Se as negociações avançarem, o acordo Japão-Mercosul poderá se tornar uma das pontes comerciais mais importantes entre a Ásia e a América do Sul. E, para quem vive entre esses dois mundos, especialmente brasileiros no Japão, essa mesa de negociação merece atenção.

Compartilhar:
Posts Relacionados 関連記事

Deixe seu Comentário

Seu email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *