Índia invade o mangá japonês
Do interior da Índia para uma das maiores editoras do Japão
Durante décadas, o Japão exportou mangás, personagens e estilos narrativos que influenciaram artistas em praticamente todos os continentes. Agora, esse movimento começa a percorrer o caminho inverso. Dois jovens irmãos indianos, criados longe dos grandes centros editoriais asiáticos, conseguiram transformar a admiração pela cultura pop japonesa em uma estreia profissional dentro do competitivo mercado de mangás do Japão.
Jivan, de 22 anos, e Yash, de 18, formam a dupla artística conhecida como masterlynx. Os dois cresceram em Amravati, cidade com pouco menos de um milhão de habitantes no estado de Maharashtra, na região central da Índia. Em maio de 2026, eles iniciaram no portal japonês Kadocomi a publicação de “Kung Fu Kanful”, uma comédia de ação produzida com o apoio editorial da gigante KADOKAWA.
A estreia chama atenção não apenas pela nacionalidade dos autores. Trata-se do primeiro lançamento comercial no Japão surgido diretamente do novo programa da KADOKAWA para descobrir, orientar e profissionalizar artistas residentes no exterior. Em outras palavras, os irmãos não estão apenas publicando uma obra estrangeira traduzida para o japonês. Eles estão participando do mesmo processo editorial utilizado para desenvolver uma série destinada ao público japonês.
O sonho começou com Dragon Ball
A trajetória dos irmãos começou de maneira semelhante à de milhões de jovens espalhados pelo mundo. Quando crianças, eles assistiam a “Dragon Ball” e tentavam reproduzir no papel os personagens criados por Akira Toriyama.
A diferença é que o interesse não desapareceu com o passar dos anos. Jivan e Yash continuaram desenhando, estudando enquadramentos, movimentos, expressões e formas de construir histórias. Sem escolas especializadas ou materiais suficientes sobre técnicas de mangá disponíveis em sua cidade, recorreram à internet, a vídeos de artistas japoneses e à observação detalhada das obras que admiravam.
Além de Toriyama, eles estudaram o trabalho de autores como Naoki Urasawa, responsável por títulos como “Monster” e “20th Century Boys”. Antes de entrar no mercado japonês, a dupla produzia ilustrações para clientes estrangeiros, usando o desenho como trabalho enquanto tentava desenvolver histórias próprias.
A oportunidade surgiu quando os irmãos descobriram um concurso internacional promovido pela KADOKAWA. A competição procurava histórias sem diálogos, uma proposta que eliminava parte da barreira linguística e permitia que artistas de diferentes países fossem avaliados principalmente pela capacidade visual de contar uma narrativa.
A obra apresentada pela dupla, chamada “Heartsteel”, conquistou o prêmio de prata. O resultado abriu as portas para o acompanhamento de editores japoneses e, posteriormente, para uma publicação mensal no Japão.
Uma aventura construída entre Índia e Japão
“Kung Fu Kanful” combina elementos de diferentes partes da cultura asiática. A história acompanha Goemon, um grande ladrão, e o jovem Bao, que se envolvem em uma disputa contra um grupo de vilões interessado em um misterioso tesouro.

A série utiliza comédia, artes marciais e cenas de ação aceleradas, enquanto mistura referências japonesas, chinesas e indianas. Segundo a própria KADOKAWA, a força da dupla está na capacidade de demonstrar respeito pela tradição do mangá japonês sem abandonar uma identidade artística própria.
O processo de produção também revela como pode funcionar uma indústria de mangás mais internacional. Os irmãos escrevem inicialmente os textos em inglês e enviam o material digitalmente para a equipe editorial no Japão. Os editores traduzem e adaptam as falas, além de trabalhar as onomatopeias japonesas, parte essencial da linguagem visual dos mangás.
Palavras que representam golpes, movimentos, silêncio, surpresa ou tensão não podem ser simplesmente traduzidas de forma literal. Elas precisam combinar com o desenho, ocupar corretamente o espaço da página e transmitir uma sensação natural aos leitores japoneses. Para os irmãos, esse tem sido um dos principais desafios da produção.
Mesmo vivendo na Índia, eles participam de reuniões e revisões pela internet, mostrando que a localização geográfica deixou de ser uma barreira absoluta para trabalhar com uma editora japonesa.
O Japão está procurando novos autores no exterior
A estreia de masterlynx acontece em um momento de transformação para o setor editorial. O mercado japonês continua produzindo uma enorme quantidade de séries, mas a disputa por artistas capazes de manter publicações regulares se tornou mais intensa.
Nos últimos anos, editoras, plataformas digitais, empresas de jogos, serviços de streaming e estúdios de animação passaram a competir pelas mesmas histórias e pelos mesmos criadores. Diante dessa demanda, empresas japonesas começaram a observar com mais atenção artistas de outros países que cresceram lendo mangás e aprenderam a utilizar sua linguagem narrativa.
Em 2025, a KADOKAWA criou um departamento especializado em artistas estrangeiros. No ano seguinte, lançou o KADOKAWA World Manga Atelier, projeto que reúne concursos internacionais, avaliação de portfólios pela internet e sessões presenciais de orientação realizadas em eventos no exterior.
A primeira edição do concurso internacional de mangás sem palavras recebeu 1.126 obras de 104 países e regiões, um número que demonstra como o mangá deixou de ser apenas um produto consumido globalmente e se tornou uma linguagem utilizada por criadores de diversas nacionalidades.
A empresa também passou a aceitar propostas online em inglês ou japonês, permitindo que artistas enviem trabalhos diretamente aos editores sem precisar morar em Tóquio ou possuir contatos dentro da indústria.
Uma mudança silenciosa na cultura do mangá
O mangá sempre esteve profundamente ligado à sociedade japonesa, às suas cidades, escolas, tradições e formas de comunicação. Entretanto, sua influência internacional criou uma geração de artistas estrangeiros que não deseja apenas consumir essas histórias, mas também participar de sua produção.
A estreia dos irmãos indianos não significa que o mangá está deixando de ser japonês. Pelo contrário, mostra que sua estrutura narrativa se tornou suficientemente forte para ser reinterpretada por pessoas que cresceram em ambientes culturais completamente diferentes.
Jivan e Yash aprenderam observando artistas japoneses, mas chegam ao mercado trazendo experiências que um autor criado no Japão talvez não possua. Essa combinação pode produzir personagens, cenários e conflitos capazes de ampliar o alcance do setor sem eliminar suas características tradicionais.
Para a KADOKAWA, autores internacionais também representam a possibilidade de criar propriedades intelectuais que já nasçam com potencial de circulação global. Uma obra desenvolvida simultaneamente entre Índia e Japão pode encontrar leitores não apenas nesses dois países, mas em comunidades de fãs espalhadas pela Ásia, Europa, América Latina e outras regiões.
O começo de uma nova geração
Os irmãos afirmam que desejam produzir o maior número possível de obras e continuar evoluindo como artistas. O primeiro objetivo, entretanto, já foi alcançado: sair de uma cidade do interior da Índia e conquistar uma publicação profissional dentro da indústria que os inspirou desde a infância.
A história de masterlynx mostra como a tecnologia, os concursos internacionais e as plataformas digitais estão redesenhando os caminhos de entrada no mercado japonês. Até pouco tempo atrás, um jovem estrangeiro que sonhasse em publicar mangás no Japão provavelmente precisaria estudar japonês, mudar-se para o país e tentar pessoalmente chamar a atenção de uma editora.
Hoje, uma história pode atravessar continentes antes mesmo de receber seus primeiros diálogos.
O Japão continua sendo o centro mundial do mangá, mas as próximas grandes séries talvez não sejam criadas apenas em pequenos apartamentos de Tóquio ou nos estúdios de Osaka. Elas também podem nascer em quartos transformados em escritórios na Índia, no Brasil, nas Filipinas, no Vietnã ou em qualquer outro lugar onde alguém tenha crescido acreditando que desenhar histórias poderia se transformar em profissão.