Houthis Dão Trégua ao Japão
Navios japoneses foram retirados da lista de alvos no estreito de Bab el-Mandeb, mas a promessa chega quando petróleo, iene fraco e inflação aumentam a pressão sobre o governo
Os houthis afirmaram que navios japoneses não serão atacados durante a passagem pelo estreito de Bab el-Mandeb, uma das rotas marítimas mais importantes para o transporte de petróleo entre o Oriente Médio e a Ásia. A declaração representa um alívio para Tóquio, mas não significa que a região tenha se tornado segura ou que o risco de uma nova crise energética tenha desaparecido.
Segundo Mohammed al-Bukhaiti, integrante da liderança política do grupo que controla grande parte do Iêmen, o bloqueio anunciado pelos houthis é direcionado à Arábia Saudita. Ele afirmou que embarcações japonesas poderão atravessar o estreito mesmo quando estiverem transportando petróleo saudita, desde que não sejam identificadas como navios pertencentes ao reino.
A promessa, entretanto, depende de comunicação antecipada com o grupo e de uma autorização informal para a passagem. Isso deixa armadores, seguradoras e tripulações diante de uma garantia política sem força jurídica, oferecida por uma organização armada envolvida diretamente na guerra regional.
Uma rota vital para a economia japonesa
Bab el-Mandeb conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez. Sua importância para o Japão aumentou depois que a instabilidade no estreito de Hormuz obrigou a Arábia Saudita a direcionar mais petróleo para o porto de Yanbu, em sua costa ocidental.
Mais de 70% das exportações sauditas de petróleo passaram a sair dessa região, segundo informações reunidas pelo The Guardian. Para alcançar mercados asiáticos, os petroleiros precisam atravessar justamente a área ameaçada pelos houthis. Japão, Coreia do Sul e outros países asiáticos dependem do Oriente Médio para uma parcela que pode chegar a 90% de suas importações de petróleo.
A ameaça já mudou o comportamento das empresas. O tráfego de navios diminuiu, os prêmios de seguro contra riscos de guerra dobraram em alguns casos e parte das embarcações começou a estudar desvios pelo Mediterrâneo ou pelo Cabo da Boa Esperança. Essas alternativas podem mais do que duplicar o tempo de viagem e elevar consideravelmente os custos de transporte.
Mesmo sem um ataque contra um navio japonês, esses custos acabam chegando às refinarias, às transportadoras e, posteriormente, aos consumidores.
Crise marítima pressiona o iene
A declaração houthi ocorre em um momento especialmente delicado para a economia japonesa. O aumento dos preços do petróleo e a fraqueza do iene encarecem praticamente tudo o que o país importa, desde combustíveis e alimentos até matérias-primas industriais.

Em 30 de julho, o iene valorizou-se mais de 3% e chegou a aproximadamente ¥157,8 por dólar, depois de ter atingido ¥163,99, seu nível mais fraco em quase quatro décadas. Fontes do mercado indicaram que autoridades japonesas compraram ienes e venderam dólares, possivelmente em uma ação coordenada com a Coreia do Sul.
A intervenção cambial é determinada pelo Ministério das Finanças e normalmente executada pelo Banco do Japão. Ela pode conter movimentos especulativos e desacelerar uma queda abrupta da moeda, mas dificilmente resolve o problema de maneira permanente quando petróleo caro, juros externos elevados e preocupações fiscais continuam pressionando o mercado.
O Banco do Japão decidiu manter sua taxa básica em 1% em 31 de julho, embora tenha sinalizado que poderá elevar os juros novamente caso a inflação se intensifique. Um dos integrantes do conselho defendeu uma alta imediata para 1,25%, demonstrando que existe divisão interna sobre a velocidade do aperto monetário.
Juros mais altos podem fortalecer o iene, mas também encarecem financiamentos, hipotecas e o custo da dívida pública. O banco central precisa, portanto, combater a inflação sem enfraquecer ainda mais o consumo e a economia doméstica.
Corte de impostos vira resposta política
Sob pressão pelo aumento do custo de vida, a primeira-ministra Sanae Takaichi anunciou que o imposto sobre o consumo de alimentos e bebidas deverá cair dos atuais 8% para 1%, durante dois anos, a partir de abril de 2027.
Será a primeira redução desse imposto desde sua introdução, em 1989. A proposta pretende oferecer alívio direto às famílias, mas também cria dúvidas sobre como o governo substituirá a perda de arrecadação. Takaichi declarou que não pretende financiar a medida com novos títulos destinados a cobrir o déficit.
O problema é que a redução só deverá começar meses depois, enquanto os consumidores já enfrentam contas de energia, combustíveis e alimentos mais caras. Além disso, qualquer nova interrupção marítima pode reduzir parte do benefício antes mesmo de o corte entrar em vigor.
A primeira-ministra está pressionada a mostrar que consegue proteger o poder de compra da população sem destruir a credibilidade fiscal do país. De um lado, precisa subsidiar combustíveis, reduzir impostos e responder à inflação. Do outro, deve convencer os mercados de que o Japão continuará controlando uma dívida pública extremamente elevada.
Uma promessa que pode mudar rapidamente
A decisão dos houthis de poupar navios japoneses reduz o risco imediato, mas não oferece uma rota completamente protegida. A identificação de uma embarcação pode envolver sua bandeira, proprietários, operadores, contratos e origem da carga. Um navio registrado no Japão pode ter relações comerciais com empresas sauditas ou estrangeiras suficientes para gerar interpretações diferentes.
Também não existe garantia de que a promessa será mantida caso a guerra no Oriente Médio se intensifique. Os houthis já demonstraram capacidade para atingir petroleiros e instalações energéticas, enquanto a disputa com a Arábia Saudita ameaça abrir uma nova frente no conflito regional.
Para o Japão, a notícia é positiva, mas o alívio é frágil. A segurança de seus navios continua dependendo de decisões tomadas por forças armadas a milhares de quilômetros de Tóquio.
O país recebeu uma promessa de passagem. O governo, porém, ainda precisa impedir que o custo dessa guerra desembarque nos postos de gasolina, nos supermercados e nas contas das famílias japonesas.