O mundo do sumô voltou a ser abalado por um caso de violência interna — desta vez envolvendo uma das figuras mais respeitadas do esporte. A Associação Japonesa de Sumô anunciou punição ao ex-yokozuna Terunofuji, hoje mestre do estábulo Isegahama, após ele agredir um de seus próprios discípulos.
A decisão foi tomada em uma reunião extraordinária realizada no dia 9, em Tóquio. O treinador, de 34 anos, foi rebaixado em dois níveis dentro da hierarquia da associação e terá redução de 10% no salário por três meses.
Agressão ocorreu após comportamento inadequado do lutador
Segundo a investigação, o mestre desferiu dois socos no rosto do lutador da divisão principal, Hakunofuji, de 22 anos. O episódio aconteceu enquanto ele repreendia o atleta por um comportamento considerado impróprio.
O incidente que desencadeou a agressão ocorreu em fevereiro, quando o lutador, embriagado, teria tocado de forma inadequada a perna de uma apoiadora em Tóquio. Durante a bronca, o treinador afirmou que o discípulo não poderia simplesmente justificar o ato dizendo que “bebeu demais e não se lembrava”.
Após o ocorrido, ambos foram ouvidos pela associação no fim de fevereiro. O mestre admitiu a agressão, e como medida inicial foi afastado do torneio de março, ficando 15 dias sem comparecer ao local das competições.
Por que o estábulo não foi fechado?
Um dos pontos que mais gerou debate foi a decisão de manter o estábulo Isegahama funcionando, mesmo após o caso de violência.
A comparação veio rapidamente: em 2024, o antigo estábulo Miyagino — ligado ao lendário Hakuho — foi fechado após um escândalo envolvendo agressões cometidas por um discípulo. Na ocasião, o mestre foi responsabilizado pela falta de supervisão.
Desta vez, a Associação explicou a diferença. No caso atual, a responsabilidade foi considerada individual, e não estrutural. Como medida preventiva, o estábulo passará a operar sob um sistema de supervisão coletiva, com outros quatro treinadores participando diretamente da orientação dos lutadores.
Histórico pesado de violência no sumô
Apesar da imagem tradicional e disciplinada, o sumô carrega um histórico recorrente de episódios violentos.
Em 2007, um caso chocou o país: um jovem lutador de 17 anos morreu após ser brutalmente agredido dentro de um estábulo, levando à condenação criminal do mestre e de outros envolvidos.
Nos anos seguintes, outros escândalos vieram à tona. Em 2010, o yokozuna Asashoryu se aposentou após agredir um civil. Em 2017, Harumafuji também deixou o esporte após atacar um colega durante uma turnê.
Casos mais recentes incluem agressões entre lutadores e punições a mestres por falhas na supervisão — incluindo fechamento de estábulos e rebaixamentos.
Entre tradição e pressão por mudança
O caso atual reforça um dilema antigo: até onde vai a disciplina no sumô e onde começa o abuso?
A estrutura rígida dos estábulos, baseada em hierarquia absoluta, ainda cria um ambiente onde jovens lutadores têm pouca margem para questionar superiores. Isso contribui para a repetição de episódios de violência, muitas vezes tratados internamente até ganharem proporções públicas.
Mesmo com comissões de compliance e investigações mais rigorosas, os escândalos continuam surgindo — colocando em xeque a capacidade do esporte de se adaptar aos padrões modernos.
Um símbolo em risco
O sumô segue sendo um dos maiores patrimônios culturais do Japão. Mas casos como este mostram que, por trás da tradição e do ritual, existe um sistema sob pressão.
A punição ao ex-yokozuna pode até parecer severa dentro da estrutura interna do esporte. Ainda assim, para muitos observadores, ela levanta uma questão inevitável:
o sumô está realmente mudando — ou apenas reagindo quando os escândalos se tornam inevitáveis?



