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A Prova Virou um Pesadelo

Minna Portal julho 13, 2026 9 min 9 visualizações

Após o Japão endurecer a conversão de carteiras estrangeiras, as taxas de aprovação despencaram. O exame teórico deixou de ser uma simples formalidade, enquanto apenas uma pequena parcela dos candidatos consegue superar a avaliação prática.

O caminho fácil deixou de existir

Durante anos, muitos estrangeiros que já possuíam uma carteira de motorista válida em seus países conseguiam convertê-la para uma habilitação japonesa por meio do sistema conhecido como gaimen kirikae. O procedimento exigia análise de documentos, uma verificação básica de conhecimentos e, dependendo do país de origem, uma avaliação prática.

Esse caminho, entretanto, mudou profundamente.

Desde outubro de 2025, o Japão passou a aplicar regras muito mais rígidas para confirmar se os candidatos realmente compreendem as normas de trânsito e conseguem dirigir com segurança nas condições encontradas no país. O resultado foi imediato: as taxas de aprovação caíram drasticamente, e escolas de direção começaram a receber um número crescente de estrangeiros que não conseguiram passar nas avaliações oficiais.

A procura por aulas preparatórias está aumentando não apenas entre pessoas sem experiência, mas também entre motoristas que dirigiram durante anos em seus países. O problema é que experiência ao volante não significa, necessariamente, domínio do padrão exigido pelos examinadores japoneses.

De dez perguntas simples para uma prova de verdade

Antes da mudança, a verificação de conhecimentos era composta por apenas dez perguntas ilustradas. Para ser aprovado, o candidato precisava responder corretamente a sete delas, alcançando um aproveitamento mínimo de 70%.

O formato era frequentemente criticado por ser superficial. Em alguns casos, candidatos conseguiam acertar as respostas interpretando apenas os desenhos, mesmo sem compreender completamente as regras japonesas.

Com a reforma, a prova passou a ter 50 questões, sem depender principalmente de ilustrações, e o percentual mínimo de acertos subiu para 90%. Agora, o candidato precisa responder corretamente a pelo menos 45 perguntas.

A mudança transformou uma avaliação que muitos consideravam quase protocolar em um verdadeiro teste de legislação e segurança viária. Entre outubro e dezembro de 2025, somente 11.716 dos 27.354 candidatos foram aprovados na parte teórica. A taxa de sucesso caiu de 92,5%, registrada em 2024, para apenas 42,8% após o endurecimento das regras.

Isso significa que mais da metade dos candidatos passou a ser eliminada antes mesmo de entrar no veículo.

Na prova prática, somente um em cada oito passa

A situação é ainda mais difícil na avaliação de direção.

A prova prática já era conhecida por sua exigência, mas passou a observar com maior rigor comportamentos como prioridade ao pedestre, passagem por faixas de segurança, travessia de linhas ferroviárias, arrancadas em subidas, uso correto das setas e posicionamento do veículo durante conversões.

Entre outubro e dezembro de 2025, apenas 3.041 dos 23.245 candidatos avaliados conseguiram aprovação. A taxa de sucesso caiu de 30,4%, em 2024, para somente 13,1% depois da mudança. Na prática, aproximadamente uma pessoa entre cada oito consegue passar.

Não basta demonstrar que o carro pode ser controlado. O examinador observa uma sequência precisa de verificações, movimentos da cabeça, posicionamento nas faixas, distância das calçadas, velocidade antes das curvas e reação diante de possíveis riscos.

Para quem aprendeu a dirigir em um país com padrões diferentes, pequenos hábitos podem provocar descontos decisivos. Entrar na faixa errada depois de uma conversão, aproximar-se demais do meio-fio, não reduzir suficientemente a velocidade ou realizar uma verificação de segurança de maneira pouco visível podem ser suficientes para uma reprovação.

Dirigir bem não é o mesmo que passar no Japão

Uma das histórias apresentadas pela imprensa japonesa é a de uma mulher chinesa identificada como Ka, residente em Narita, na província de Chiba. Mesmo depois de várias aulas, ela ainda enfrentava dificuldades para adaptar os movimentos aprendidos em um país de circulação pela direita ao sistema japonês, onde os veículos circulam pela esquerda.

Durante os treinamentos, os instrutores precisaram corrigir repetidamente seu posicionamento nas conversões. Em determinado exercício, ela entrou na faixa errada ao virar à direita. Em outro, subiu no meio-fio durante uma conversão à esquerda.

Ka conseguiu passar no exame teórico, mas foi reprovada mais de uma vez na prova prática. Como a validade da aprovação teórica se aproxima do fim, ela poderá ser obrigada a recomeçar todo o processo.

A história mostra como a reprovação pode afetar muito mais do que o orgulho do candidato. Sem carro, ela depende do marido para fazer compras e se deslocar. A estação mais próxima fica a cerca de 20 minutos de ônibus, com apenas uma ou duas partidas por hora, enquanto um supermercado maior está aproximadamente a meia hora de automóvel.

Em muitas regiões japonesas, principalmente fora dos grandes centros, a carteira de motorista não representa luxo ou conveniência. Ela pode determinar se uma pessoa consegue chegar ao trabalho, levar os filhos à escola, visitar um hospital ou realizar tarefas básicas sem depender constantemente de alguém.

Estrangeiros estão correndo para as autoescolas

A nova dificuldade criou uma demanda inesperada para as escolas de direção.

A Takamatsu Driving School, na província de Kagawa, registrou um aumento de aproximadamente 80 para cerca de 120 alunos estrangeiros no último ano fiscal. A instituição também passou a preparar materiais em vídeo com legendas em inglês, tentando explicar não apenas como conduzir o veículo, mas como interpretar as regras japonesas.

Em Chiba, escolas relataram uma forte alta nas consultas feitas por estrangeiros reprovados no processo de conversão. Muitos procuram treinamento apenas depois da primeira ou da segunda tentativa, quando percebem que a avaliação não segue necessariamente os mesmos critérios de uma direção cotidiana.

O crescimento dessa procura revela uma nova realidade: converter uma carteira estrangeira pode continuar sendo mais barato do que frequentar um curso completo de direção, mas tentar passar sem preparação específica tornou-se uma aposta de alto risco.

Por que o Japão decidiu endurecer o sistema

Em 2024, mais de 75 mil pessoas converteram carteiras estrangeiras no Japão, número aproximadamente duas vezes e meia maior do que o registrado dez anos antes.

O aumento ocorreu em um período de crescimento da população estrangeira, expansão do turismo e maior presença de trabalhadores internacionais em regiões onde o automóvel é essencial. Ao mesmo tempo, acidentes envolvendo alguns motoristas habilitados por meio do sistema ganharam repercussão nacional e aumentaram a pressão por mudanças.

O antigo procedimento também permitia que determinadas pessoas sem residência registrada utilizassem endereços temporários, incluindo hotéis, para iniciar o pedido. Após a reforma, a apresentação do juminhyo, o certificado de residência, passou a ser exigida na maioria dos casos, impedindo que turistas e visitantes de curta duração obtenham facilmente uma carteira japonesa por esse caminho.

O governo argumenta que a habilitação japonesa não deve ser concedida apenas porque alguém já possui uma carteira emitida no exterior. É necessário comprovar que o candidato conhece as regras locais e consegue aplicá-las de maneira segura.

O desafio não pode ser tratado apenas como um problema dos estrangeiros

O endurecimento pode melhorar a segurança, mas também expõe uma fragilidade maior: muitas comunidades ainda não oferecem educação de trânsito acessível em vários idiomas.

Exigir que todos os motoristas cumpram o mesmo padrão é razoável. Entretanto, candidatos que vivem e trabalham no Japão também precisam ter acesso a materiais atualizados, explicações claras e oportunidades reais de treinamento.

Empresas que contratam estrangeiros para regiões rurais, fábricas afastadas ou atividades que dependem de veículos não podem simplesmente considerar a obtenção da carteira como uma responsabilidade individual. A reprovação repetida pode impedir o início de um trabalho, aumentar custos e ampliar o isolamento de famílias que já enfrentam transporte público limitado.

As prefeituras, escolas de direção e companhias empregadoras terão de decidir se desejam apenas aplicar uma barreira mais alta ou se também ajudarão os residentes a alcançar o padrão exigido.

Uma carteira que agora exige preparação séria

A mensagem deixada pelos novos números é clara. A conversão da carteira estrangeira no Japão deixou de ser um procedimento que pode ser enfrentado apenas com experiência acumulada em outro país.

O candidato precisa estudar legislação, compreender diferenças culturais no trânsito e aprender a demonstrar cada verificação de segurança da maneira esperada no exame. Também deve estar preparado para repetir aulas e avaliações, especialmente na prova prática.

A queda das taxas de aprovação não significa que estrangeiros sejam incapazes de dirigir no Japão. Ela mostra que o antigo sistema avaliava pouco e que o novo sistema passou a cobrar muito mais, sem que toda a estrutura de preparação tenha acompanhado essa transformação.

No Japão atual, ter dirigido durante dez ou vinte anos no exterior pode não ser suficiente. Diante do examinador, cada olhar, cada seta e cada centímetro ocupado na pista podem decidir se o candidato receberá a carteira ou voltará para casa com mais uma reprovação.

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