Biogás de esterco em projeto ousado entre Japão e Índia
Japão e Índia apostam no biogás para desafiar o petróleo
O Japão e a Índia estão prestes a transformar uma imagem improvável em política industrial: carros abastecidos por combustível feito a partir de esterco de vaca. A proposta, que à primeira vista parece saída de uma experiência rural isolada, ganhou peso diplomático com a criação de uma nova estrutura de cooperação entre os dois governos para promover veículos movidos a biogás, especialmente em um país onde os carros a CNG já ocupam uma fatia relevante do mercado. Segundo a cobertura do Times of Oman e do News of Bahrain, os dois países querem ampliar drasticamente a produção indiana de metano obtido pela fermentação de esterco, com a meta de chegar a 1.000 plantas voltadas ao abastecimento de veículos a gás natural comprimido.
O acordo que transforma fazenda em posto de combustível
O plano deve ser formalizado por meio de um memorando de entendimento durante a visita de três dias da primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi à Índia, em uma agenda que também inclui encontro com o primeiro-ministro Narendra Modi em Nova Délhi. Por trás da assinatura diplomática, porém, existe uma estratégia maior: o Japão tenta exportar tecnologia, criar novas cadeias de valor no Sul Global e fortalecer uma parceria essencial no Indo-Pacífico, enquanto a Índia busca reduzir a dependência de petróleo importado e encontrar soluções energéticas que façam sentido para sua realidade agrícola, urbana e econômica.
A grande diferença desse projeto é que ele não tenta copiar diretamente o modelo de eletrificação adotado por países ricos. Em vez de apostar apenas em carros elétricos, baterias caras e redes de carregamento que ainda avançam lentamente em muitos mercados emergentes, a iniciativa parte de algo que a Índia já tem em enorme escala: pecuária, cooperativas leiteiras, veículos a CNG e uma infraestrutura de abastecimento que pode ser adaptada para o biometano comprimido. A Agência Internacional de Energia aponta que a Índia já era o segundo maior importador líquido de petróleo bruto do mundo em 2023, com importações de 4,6 milhões de barris por dia, número que pode chegar a 5,8 milhões por dia até 2030, o que explica por que combustíveis domésticos ganharam valor estratégico.
Suzuki vira peça-chave nessa aposta incomum
A Suzuki aparece como o elo industrial mais importante desse movimento, porque domina historicamente o mercado indiano por meio da Maruti Suzuki e já vinha construindo projetos de biogás em parceria com o National Dairy Development Board e a Banas Dairy, no estado de Gujarat. Em 2023, a empresa fechou um acordo tripartite para instalar plantas de biogás baseadas em esterco no distrito de Banaskantha, com investimento previsto de 2,3 bilhões de rúpias indianas, cerca de 4 bilhões de ienes, além de postos de abastecimento próximos às unidades de produção.
Essa estrutura deixou de ser apenas promessa. Em dezembro de 2025, a Suzuki inaugurou sua primeira planta Banas Suzuki Biogas em Agthala, Gujarat, com capacidade planejada para produzir 1,5 tonelada de biogás comprimido por dia a partir de até 100 toneladas diárias de esterco de vaca, volume suficiente, segundo a empresa, para abastecer aproximadamente 850 veículos CNG por dia. Em janeiro de 2026, a montadora abriu uma segunda unidade em Bhukhala, também em Banaskantha, repetindo o modelo de produzir combustível e fertilizante orgânico a partir dos resíduos depois da geração do gás.
O que parece uma solução simples é, na verdade, uma tentativa de desenhar uma economia circular completa. O esterco comprado dos produtores rurais entra como matéria-prima, passa por fermentação, gera gás para veículos, deixa resíduos que viram fertilizante orgânico e cria uma nova fonte de renda para agricultores e famílias ligadas ao setor leiteiro. A cobertura da Kyodo, republicada pelo Science Japan, destacou que a Suzuki compra esterco de produtores próximos por 1 rúpia por quilo, o que pode gerar cerca de 72.000 rúpias por ano para uma família média local, além de reduzir emissões de metano que seriam liberadas pelo resíduo não tratado.
Por que isso importa para além dos carros
A Índia tem cerca de 300 milhões de bovinos, uma realidade que torna o esterco não apenas um resíduo agrícola, mas uma possível fonte de energia distribuída. Quando fermentado em tanques, esse material libera biogás, que pode ser purificado e comprimido para uso em veículos semelhantes aos que já rodam com CNG. A diferença central é que, no lugar de depender apenas de gás natural fóssil, o sistema aproveita uma matéria-prima local, renovável e vinculada à vida rural, criando uma ponte entre mobilidade urbana, renda agrícola e segurança energética.
A UNIDO descreve o projeto como uma colaboração entre o setor leiteiro indiano e o setor automotivo japonês para produzir e fornecer biometano comprimido como fonte de energia carbono-neutra, além de fertilizantes orgânicos. O plano inclui cinco plantas em Gujarat, uso de tecnologia japonesa, postos de abastecimento próximos às unidades, capacitação de operadores e agricultores, medição de redução de emissões ao longo da cadeia e possível busca por créditos de carbono, com duração prevista de julho de 2025 a dezembro de 2027.
A mensagem escondida no tanque de biogás
A cooperação também mostra que a transição energética não terá uma única forma. Para países com alta renda, redes elétricas robustas e consumidores capazes de pagar por carros elétricos mais caros, a eletrificação direta pode parecer o caminho natural. Para a Índia, onde há forte presença de veículos a CNG, grande produção rural e necessidade urgente de reduzir importações de energia, o biogás oferece uma rota intermediária mais pragmática, principalmente quando conectado a cooperativas locais e à cadeia de fertilizantes.
O Ministério do Petróleo e Gás Natural da Índia já vinha promovendo o programa SATAT, lançado em 2018 para criar um ecossistema de produção de Compressed Bio Gas a partir de resíduos e biomassa, com empresas públicas de óleo e gás chamadas a comprar o combustível de empreendedores privados. Esse detalhe é importante porque mostra que o acordo com o Japão não nasce do nada; ele se encaixa em uma política indiana mais ampla de transformar lixo orgânico, resíduos agrícolas e esterco em combustível comercial.

No fim, o carro movido a biogás não é apenas uma curiosidade de engenharia, nem uma manchete engraçada sobre esterco de vaca virando combustível. Ele representa uma disputa muito maior sobre quem conseguirá oferecer soluções climáticas acessíveis para países populosos, dependentes de energia importada e ainda distantes de uma eletrificação total. Se o plano Japão-Índia funcionar, o combustível do futuro em parte da Ásia talvez não venha apenas de minas de lítio, hidrogênio verde ou grandes usinas solares, mas também de cooperativas rurais, tanques de fermentação e uma matéria-prima que durante séculos foi tratada como simples resíduo.