agosto 5, 2026 | quarta-feira
Cotidiano

Kim Yo Jong: Japão vai se arrepender

Minna Portal agosto 5, 2026 7 min 3 visualizações

A irmã poderosa de Kim Jong Un emitiu nesta quarta-feira um dos avisos mais duros dos últimos meses contra Tóquio. Em declaração divulgada pela agência estatal KCNA, Kim Yo Jong afirma que Pyongyang preparará “opções militares adicionais” depois que o Japão realizou o primeiro teste real de um míssil Tomahawk americano, deixando claro que a resposta norte-coreana não se limitará a palavras.

A mensagem veio sem filtro diplomático. Kim Yo Jong descreveu o Japão como um “Estado criminoso de guerra” que acelera a transformação em “Estado de guerra”, abandonando a postura exclusivamente defensiva que manteve por décadas e desenvolvendo agora capacidade de ataque preventivo e operações no exterior.

Segundo ela, a aquisição de armas de longo alcance coloca a Coreia do Norte e países vizinhos dentro do raio de ação japonês, e a resposta de Pyongyang será fazer Tóquio sentir que sua própria segurança ficou mais exposta. “Devemos fazê-lo se arrepender”, escreveu, em um tom que analistas classificam como um dos mais fortes dos últimos meses.

O teste que acendeu o estopim

O ponto de partida da declaração foi o lançamento realizado no final de julho pelo contratorpedeiro Aegis JS Chokai, no Oceano Pacífico. Foi a primeira vez que o Japão disparou um Tomahawk em condições reais de combate. O míssil, com alcance superior a 1.600 quilômetros, faz parte do pacote de armamentos comprado dos Estados Unidos para criar a chamada capacidade de contra-ataque, prevista na Estratégia de Segurança Nacional de 2022, e representa um marco na mudança de postura militar japonesa.

Kim Yo Jong não se limitou ao Tomahawk. Ela citou também o posicionamento, em março, de mísseis de superfície-para-navio de longo alcance e projéteis de planagem de alta velocidade em bases nas prefeituras de Kumamoto e Shizuoka, além da participação japonesa em exercícios militares liderados pelos Estados Unidos nas Filipinas em maio. Para a dirigente norte-coreana, esses movimentos revelam que as Forças de Autodefesa estão sendo reorganizadas para conduzir ataques preventivos e operações além das fronteiras, transformando o que era uma força estritamente defensiva em algo bem diferente.

A acusação contra Washington

A declaração não poupou os Estados Unidos. Kim Yo Jong afirmou que a Casa Branca está por trás dos “movimentos militares perigosos” do Japão ao fornecer os Tomahawks, modificar os navios japoneses para operá-los e apoiar os testes, transformando Tóquio e Seul em uma espécie de “brigada de choque” americana na região. Desde julho a KCNA já publicou pelo menos seis editoriais e comentários condenando a cooperação de segurança entre Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão, e a declaração de hoje se encaixa nesse padrão de crítica sistemática.

Analistas em Seul veem dois objetivos claros na mensagem. O primeiro é apresentar a modernização militar japonesa como ameaça direta à segurança norte-coreana, justificando o próprio fortalecimento armamentista de Pyongyang. O segundo é preparar o terreno para eventuais demonstrações militares futuras, que podem incluir novos testes de mísseis ou exibições de capacidade de ataque submarino, mantendo a pressão sem comprometer detalhes operacionais.

O contexto japonês que irrita Pyongyang

Desde a adoção da nova Estratégia de Segurança Nacional, em 2022, o Japão tem aumentado de forma consistente o orçamento de defesa, relaxado restrições à exportação de armas e reforçado a cooperação com aliados. Sob o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi, que assumiu em 2025, o tom de urgência se intensificou ainda mais. No dia anterior à declaração de Kim Yo Jong, o ministro da Defesa japonês afirmou que o país precisa reforçar suas capacidades “com senso de urgência e crise”, citando ameaças crescentes da China, da Rússia e da própria Coreia do Norte.

Para Tóquio, a capacidade de contra-ataque não significa abandono do pacifismo constitucional, mas uma resposta a um ambiente de segurança em que mísseis balísticos podem ser lançados em questão de minutos. A interpretação de Pyongyang, no entanto, é oposta: vê no processo uma tentativa de reescrever a história e recuperar ambições de expansão militar que o país abandonou após 1945, usando a retórica de “criminoso de guerra” para reforçar essa narrativa.

O que significa “opções militares adicionais”

Kim Yo Jong não detalhou quais medidas a Coreia do Norte pretende adotar, e a frase “vamos estabelecer opções militares adicionais” é deliberadamente aberta. Especialistas apontam que o regime tem investido fortemente na modernização da marinha e em sistemas de mísseis de longo alcance. Em declarações anteriores, o próprio Kim Jong Un já havia acusado o Japão de se transformar abertamente em “Estado de guerra”, pedindo o reforço das capacidades militares norte-coreanas, o que indica continuidade de uma linha dura.

Kim Yo Jong, sister of North Korea’s leader Kim Jong Un, arrives at the Vostochny Сosmodrome before a meeting of Russia’s President Vladimir Putin with North Korea’s leader Kim Jong Un, in the far eastern Amur region, Russia, September 13, 2023. Sputnik/Vladimir Smirnov/Pool via REUTERS ATTENTION EDITORS – THIS IMAGE WAS PROVIDED BY A THIRD PARTY. THIS PICTURE WAS PROCESSED BY REUTERS TO ENHANCE QUALITY. AN UNPROCESSED VERSION HAS BEEN PROVIDED SEPARATELY.

A ausência de detalhes específicos deixa espaço para interpretação. Pode significar novos testes de mísseis que sobrevoem o Japão, como já ocorreu no passado, ou o desenvolvimento de capacidades submarinas de ataque. Pode, ainda, ser apenas uma escalada retórica destinada a manter a pressão diplomática e justificar o ritmo acelerado de desenvolvimento armamentista em Pyongyang, sem necessariamente apontar para uma ação imediata.

Uma tensão antiga que muda de tom

As relações entre Tóquio e Pyongyang nunca foram simples. O Japão colonizou a península coreana até 1945 e a divisão do país após a guerra deixou feridas abertas que ainda influenciam a retórica de ambos os lados. Nas últimas décadas, a Coreia do Norte usou o Japão como alvo frequente de propaganda e, ocasionalmente, de lançamentos de mísseis. O que muda agora é o contexto: o Japão deixou de ser apenas um alvo retórico e passou a ser visto, em Pyongyang, como um ator militar com capacidade ofensiva real.

A declaração chega em um momento em que a cooperação trilateral entre Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul avança em ritmo acelerado, enquanto a Coreia do Norte estreita laços com a Rússia e mantém diálogo estratégico com a China. O resultado é um ambiente de segurança no Leste Asiático cada vez mais polarizado, no qual cada movimento de um lado é lido pelo outro como preparação para conflito.

O que permanece em aberto é se a ameaça de “opções militares adicionais” se traduzirá em ação concreta nos próximos meses ou se permanecerá no terreno da propaganda. O que a declaração deixa claro, no entanto, é que Pyongyang não pretende observar em silêncio a consolidação da capacidade de ataque de longo alcance japonesa. A pergunta que paira agora é até onde cada lado está disposto a ir para demonstrar força sem cruzar a linha que transforma retórica em crise aberta.

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