Rei Kazu continua quebrando recordes
Aos 59 anos, o “Rei Kazu” voltou a fazer história no Japão
Kazuyoshi Miura entrou em campo mais uma vez e, para quem acompanha futebol há algumas décadas, a frase parece quase absurda. O atacante japonês, conhecido no país inteiro como Kazu ou “King Kazu”, foi titular pelo Fukushima United em uma partida oficial da J.League e atualizou o próprio recorde de jogador mais velho a disputar um jogo oficial da liga japonesa. Aos 59 anos, 3 meses e 12 dias, ele não apareceu apenas como símbolo, mascote ou peça de marketing. Ele começou a partida, correu, pressionou a defesa adversária e deixou o gramado aos 21 minutos sob aplausos.
O feito aconteceu no domingo, 7 de junho de 2026, no estádio Toho Minna no Stadium, em Fukushima. A notícia, divulgada pela Kyodo e publicada pelo Nippon.com, rapidamente ganhou repercussão porque Kazu já não pertence apenas ao noticiário esportivo. Ele se tornou uma espécie de personagem cultural do Japão moderno, alguém que atravessou gerações, sistemas táticos, mudanças de calendário, transformações econômicas e até a própria criação da liga profissional japonesa.
Enquanto muitos jogadores da sua geração se tornaram técnicos, comentaristas, dirigentes ou nomes de bastidores, Kazu continua fazendo aquilo que decidiu fazer ainda jovem: vestir chuteiras, treinar como atleta profissional e esperar a próxima chance de entrar em campo.
Um recorde que parece impossível de alcançar
O número impressiona porque não se trata de uma carreira simbólica que começou tarde. Kazu estreou como profissional em 1986, no Santos, no Brasil, quando o futebol japonês ainda não tinha uma liga profissional estruturada como a J.League atual. Na prática, sua carreira profissional atravessa cinco décadas diferentes, do futebol dos anos 1980 ao futebol hiperfísico, acelerado e globalizado dos anos 2020.
Aos 59 anos, ele está em uma idade em que a maioria dos ex-jogadores já está há décadas distante da rotina de concentração, viagens, treinos, controle físico e pressão competitiva. Mesmo assim, Kazu segue sob contrato com o Yokohama FC e chegou ao Fukushima United por empréstimo, com vínculo previsto até 30 de junho de 2026. A transferência marcou seu retorno à J.League após cinco anos e também sua primeira experiência em um clube da J3.
Na partida mais recente, o gol não veio. Segundo a imprensa japonesa, Kazu tentou se movimentar nas costas da defesa e participou da pressão ofensiva, mas deixou o campo ainda no primeiro tempo. O detalhe, porém, não diminui o tamanho do feito. O simples fato de estar apto para iniciar uma partida oficial, em um ambiente competitivo, já seria incomum para qualquer atleta na casa dos 40 anos. Para alguém perto dos 60, vira um caso quase sem comparação.

O jogador que ajudou a vender o sonho da J.League
Para entender por que Kazu ainda comove tanto o Japão, é preciso voltar ao início dos anos 1990. Antes da explosão da J.League, o futebol japonês buscava uma identidade profissional, popular e comercial. O país ainda era muito mais associado ao beisebol, ao sumô e aos esportes escolares. Kazu, com seu estilo técnico, sua experiência no Brasil e sua personalidade midiática, virou um dos rostos ideais para apresentar o futebol profissional ao grande público.
Ele jogou pelo Verdy Kawasaki, foi eleito MVP da J.League em 1993 e se tornou uma estrela nacional em um momento em que o Japão tentava se colocar no mapa internacional do futebol. Também passou por clubes no Brasil, Itália, Croácia, Austrália e Portugal, uma trajetória rara para um jogador japonês de sua época.
Pela seleção japonesa, Kazu marcou 55 gols em 89 partidas entre 1990 e 2000. Esses números ajudam a explicar por que seu nome ainda provoca respeito mesmo entre torcedores que não o viram no auge. Ele não é apenas um veterano persistente. Ele foi um dos grandes nomes da construção do futebol japonês moderno.
A ferida de 1998 e a carreira que não terminou
A história de Kazu também carrega uma ausência famosa: a Copa do Mundo de 1998. O Japão disputou naquele ano seu primeiro Mundial, mas Miura ficou fora da lista final. Para muitos torcedores, a decisão marcou uma das maiores controvérsias do futebol japonês. Na época, ele tinha 31 anos e já era tratado como veterano. O curioso é que, quase três décadas depois, ele ainda segue em atividade.
Essa permanência transforma a carreira de Kazu em algo maior do que uma estatística. Há nela uma espécie de resposta silenciosa ao tempo. Ele não venceu o relógio, porque ninguém vence, mas aprendeu a negociar com ele. Passou a jogar menos minutos, aceitou divisões mais baixas, mudou de clubes, adaptou o corpo e assumiu outro tipo de papel dentro dos elencos. Ainda assim, nunca abriu mão de se definir como jogador.
Em entrevistas anteriores, Kazu já afirmou que não vê a aposentadoria como opção imediata e que deseja jogar o máximo possível. A frase poderia soar exagerada em qualquer outro atleta, mas no caso dele virou uma linha de continuidade. Ano após ano, a pergunta sobre o fim da carreira reaparece. Ano após ano, ele responde em campo.
Símbolo, atração e atleta ao mesmo tempo
É evidente que a presença de Kazu carrega também um valor comercial. Sua imagem atrai mídia, torcedores, patrocinadores e curiosidade internacional. Em clubes menores, esse impacto pode ser importante. Um jogador com sua história muda a atenção sobre uma partida, vende ingressos, gera manchetes e coloca uma equipe local em destaque nacional.
Mas reduzir Kazu apenas a uma peça de marketing seria injusto. Para continuar sendo relacionado, treinando e entrando em campo, ele precisa manter um nível mínimo de condição física e comprometimento que poucos sustentariam por tanto tempo. A exigência não é a mesma de um atacante titular de seleção, mas a rotina profissional continua real. Há viagens, treinos, disputas internas e avaliação técnica.
O fascínio em torno dele nasce justamente dessa mistura. Kazu é ao mesmo tempo monumento vivo, produto cultural, atleta disciplinado e lembrança de uma era em que o futebol japonês ainda sonhava em ser grande. Cada minuto em campo parece carregar uma camada de nostalgia, mas também de teimosia competitiva.
O que Kazu ainda procura?
A pergunta mais simples talvez seja a mais difícil: por que continuar? Aos olhos de quem vê o esporte apenas como carreira, dinheiro ou rendimento máximo, a resposta parece confusa. Kazu já tem fama, história, respeito e recordes suficientes. Poderia parar sem dever nada a ninguém.
Mas o futebol, para certos jogadores, não termina quando o auge passa. Ele se transforma em hábito, linguagem e identidade. Kazu não parece perseguir apenas mais um contrato. Ele persegue a sensação de ainda pertencer ao gramado. Enquanto houver um clube disposto a lhe dar espaço, um corpo capaz de suportar a rotina e uma vontade interna maior que o desgaste, ele continuará tentando.
Seu próximo grande objetivo simbólico é evidente: marcar novamente. O último gol de Kazu em competições da J.League aconteceu em 2017, quando ele tinha 50 anos. Desde então, cada aparição reacende a expectativa de que o recorde de artilheiro mais velho também possa ser ampliado. No jogo contra o Ryukyu, isso não aconteceu. A busca ficou para a próxima oportunidade.
A lenda continua respirando
Kazu não é mais o atacante explosivo que encantou o Japão nos anos 1990. Também não é o jogador que carregaria uma equipe por 90 minutos. O que ele representa agora é outra coisa: a recusa em aceitar que uma carreira precise terminar apenas porque o calendário diz que deveria.
Em um futebol cada vez mais dominado por velocidade, dados físicos, juventude e reposição constante de talentos, Kazuyoshi Miura segue como uma anomalia bonita. Ele lembra que o esporte também vive de histórias improváveis, de personagens que não cabem nas estatísticas comuns e de atletas que insistem em transformar o fim em prorrogação.
Aos 59 anos, Kazu entrou em campo novamente. Talvez por 21 minutos. Talvez sem gol. Mas entrou. E, no caso dele, isso já basta para fazer o Japão olhar de novo para o gramado e pensar: o Rei ainda não acabou.