O café está subindo no mapa — e pode chegar até Hokkaido
Durante muito tempo, o café parecia ter um limite geográfico claro: regiões tropicais próximas ao Equador, dentro do chamado “coffee belt”. Japão, especialmente o norte do país, simplesmente não fazia parte dessa equação.
Mas essa lógica está começando a mudar.
Hoje, o cultivo de café não só existe no Japão — como está avançando para regiões cada vez mais frias, incluindo Tohoku e até Hokkaido. E isso não é coincidência. É um reflexo direto de uma transformação global.
O experimento que está acontecendo agora, em silêncio
Em uma estufa em Yamagata, cerca de 40 pés de café já alcançam quase 2 metros de altura. Alguns deles já produzem frutos vermelhos, sinal claro de que o cultivo está funcionando — mesmo fora das condições ideais.
O projeto é conduzido pela empresa Bankoku Coffee, que começou a plantar em 2020 como parte de iniciativas de desenvolvimento regional e treinamento de funcionários. No início, o cenário foi difícil: metade das cerca de 150 árvores plantadas morreu.
Mas, ao ajustar o controle de temperatura durante o inverno dentro da estufa, os resultados começaram a aparecer. Em 2024, veio a primeira colheita.
Ainda não é suficiente para produção comercial, mas o progresso é real — e contínuo.
Durante testes de degustação, o café surpreendeu: textura suave, com uma acidez equilibrada, lembrando notas cítricas de laranja. Agora, o objetivo vai além do cultivo: transformar o local em um espaço comunitário, com café, flores e experiências de colheita para visitantes.
Por que tentar plantar café em um lugar tão improvável?
A resposta está em uma crise que ainda está se formando.
O café exige condições específicas: temperatura média de cerca de 20 °C, variações térmicas ao longo do dia e alto volume de chuva anual. Por isso, sua produção sempre se concentrou em regiões tropicais da América Latina e da Ásia.
Mas esse modelo está sob ameaça.
Pesquisas indicam que, até 2050, as áreas adequadas para o cultivo da variedade Arábica podem ser reduzidas pela metade, devido ao aumento da temperatura e à queda na disponibilidade de água.
Ao mesmo tempo, o consumo global continua crescendo. A previsão é que a demanda mundial ultrapasse 10 milhões de toneladas nos próximos anos — um salto significativo em relação à última década.
Ou seja: mais gente quer café… enquanto os lugares tradicionais para produzi-lo estão diminuindo.
O Japão pode estar olhando para o futuro antes de todo mundo
Com esse cenário, empresas japonesas começaram a agir.
Segundo especialistas do setor, há um aumento claro no número de iniciativas de cultivo em todo o país, do Kanto até Okinawa. Empresas como a Yamako Farm, que fornece mudas e suporte técnico, já recebem consultas vindas até de Hokkaido.
A lógica é simples: se o clima global está mudando, novas regiões podem se tornar viáveis. E quem começar a aprender agora sai na frente.
Hokkaido: o teste mais ousado de todos
Se plantar café em Yamagata já parece desafiador, o que está sendo feito em Hokkaido vai ainda mais longe.
Pesquisadores da Hokusei Gakuen University, em parceria com outra universidade local, começaram em 2023 um estudo para entender se o café pode sobreviver no extremo norte do Japão.

A solução encontrada foi inusitada: utilizar o calor excedente gerado por energia de biogás para manter as plantas vivas durante o inverno rigoroso. O resultado? Mudas que já alcançaram cerca de 1 metro de altura dentro de estufas.
Ainda é um experimento, mas abre possibilidades interessantes — como a criação de novos produtos combinando café e leite produzido localmente.
Mais do que café, uma ferramenta de reconstrução
Em Fukushima, o cultivo de café ganhou um significado ainda mais profundo.
Na cidade de Hirono, plantações começaram em 2020 como parte de esforços de recuperação após o Grande Terremoto do Leste do Japão. O processo é difícil — muitas árvores não sobrevivem — mas os testes continuam, ajustando irrigação e métodos de cultivo.
O objetivo não é apenas produzir café, mas gerar atividade econômica e esperança em uma região marcada pela tragédia.
Um país que ama café… mas não produz
Tudo isso acontece em um país que praticamente não produz o que consome.
O Japão é o quarto maior consumidor de café do mundo, com cerca de 400 mil toneladas consumidas por ano — o equivalente a, em média, uma xícara por pessoa por dia. Ainda assim, quase 100% desse volume vem de importações.
Enquanto isso, o mercado global está mudando rapidamente. A China, por exemplo, triplicou seu consumo nas últimas décadas, mostrando que a demanda só tende a crescer.
O mapa do café pode estar mudando — e o Japão quer fazer parte disso
O que está acontecendo hoje no Japão ainda é pequeno em escala. A produção é limitada, os custos são altos e os desafios são enormes.
Mas isso talvez seja apenas o começo.
O avanço do cultivo para regiões como Tohoku e Hokkaido não é apenas um experimento agrícola — é um sinal claro de que o mapa global do café pode estar sendo redesenhado.
E se isso realmente acontecer, lugares que antes eram considerados impossíveis podem se tornar parte da próxima geração de produção mundial.
Inclusive o Japão.



