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Cotidiano

Dólar a ¥170: o alerta já foi dado

Minna Portal julho 18, 2026 8 min 7 visualizações

O iene pode estar se aproximando de uma nova fronteira histórica. Depois de o dólar ultrapassar a faixa de ¥162, um dos analistas mais precisos do mercado cambial passou a projetar que a moeda americana poderá alcançar ¥170 dentro dos próximos doze meses, aprofundando uma desvalorização que já pressiona famílias, empresas e trabalhadores estrangeiros no Japão.

A previsão ganhou destaque porque não partiu de um comentarista desconhecido. Vikram Murarka, fundador e estrategista-chefe de câmbio da Kshitij Consultancy Services, ficou no topo do ranking da Bloomberg entre os analistas mais precisos nas projeções para o par dólar-iene durante o segundo trimestre de 2026.

Murarka também esteve entre os especialistas que anteciparam o rompimento da barreira de ¥160. Agora, considera ¥170 um objetivo razoável para o período de um ano. Caso essa marca também seja superada, níveis ainda mais altos poderiam entrar no radar do mercado.

O número de ¥170, portanto, deixou de ser apenas uma hipótese extrema discutida em mesas de negociação. Ele passou a representar um cenário concreto, embora continue sendo uma previsão sujeita a mudanças econômicas, políticas e monetárias.

O iene ainda pode cair mais

Quando a análise foi divulgada, o dólar era negociado perto de ¥162,84, uma das cotações mais elevadas em cerca de quatro décadas. Para alcançar ¥170, o iene ainda precisaria perder pouco mais de 4% de seu valor diante da moeda americana.

No mercado cambial, essa distância é relevante, mas está longe de ser impossível, especialmente depois da velocidade com que o dólar rompeu barreiras que anteriormente pareciam suficientes para provocar uma reação mais forte do governo japonês.

Murarka utiliza um modelo fundamentado principalmente em análise técnica. Em vez de concentrar suas previsões em notícias, discursos políticos ou indicadores econômicos isolados, ele observa gráficos, tendências de preços, correlações entre mercados e níveis históricos de resistência.

Segundo o estrategista, desde 2024, a relação entre o índice Nikkei e o Dow Jones passou a explicar os movimentos do dólar contra o iene melhor do que apenas a diferença entre os juros japoneses e americanos.

Essa leitura não significa que os juros perderam importância. Ela indica que os mercados acionários, os fluxos internacionais de capital e o comportamento dos investidores também estão exercendo influência decisiva sobre a moeda japonesa.

O carry trade continua pressionando o Japão

Uma das forças que sustentam a desvalorização do iene é o chamado carry trade. Nessa estratégia, investidores captam recursos em moedas com juros relativamente baixos, como o iene, e direcionam o dinheiro para mercados que oferecem retornos mais elevados.

Enquanto os investimentos denominados em dólares continuarem mais rentáveis, muitos fundos e instituições financeiras terão incentivos para vender ienes e comprar ativos americanos.

Esse movimento cria uma pressão permanente sobre a moeda japonesa. Mesmo quando o iene recupera parte de seu valor, investidores podem voltar a vendê-lo para aproveitar a diferença de juros.

Murarka avalia que o Banco do Japão provavelmente continuará sendo uma das instituições monetárias menos agressivas entre as principais economias mundiais. Embora o banco central tenha aumentado os juros, o mercado esperava apenas mais uma elevação de 0,25 ponto percentual durante o restante de 2026.

Uma análise publicada pelo MUFG também identificou fatores contrários ao iene, como a deterioração da balança comercial japonesa, preocupações fiscais e uma possível recuperação das importações. Ao mesmo tempo, o banco apontou que novas intervenções cambiais e a expectativa de aumento dos juros pelo Banco do Japão poderiam oferecer algum suporte à moeda.

O governo gastou trilhões, mas não mudou a direção

O Japão já demonstrou que está disposto a gastar grandes quantias para evitar uma queda descontrolada do iene. Entre o fim de abril e o fim de maio de 2026, o Ministério das Finanças desembolsou um recorde de ¥11,73 trilhões em operações destinadas a sustentar a moeda.

A intervenção produziu uma recuperação temporária, mas não conseguiu inverter a tendência. Em poucas semanas, o dólar voltou a superar os níveis observados antes da ação governamental.

Para Murarka, a capacidade do Ministério das Finanças de alterar permanentemente a direção do mercado diminuiu consideravelmente. Isso não significa que uma nova intervenção seria inútil. Uma operação de grandes proporções poderia derrubar rapidamente a cotação do dólar, mas o efeito talvez desaparecesse sem mudanças nos fundamentos econômicos.

O Japão ainda possui reservas cambiais expressivas e condições financeiras para voltar ao mercado. Entretanto, a experiência recente indica que comprar ienes pode oferecer tempo ao governo, mas não necessariamente mudar a trajetória da moeda.

A política fiscal também enfraquece o iene

A previsão de ¥170 não está relacionada apenas aos juros. A política de expansão fiscal do governo japonês também provoca preocupação entre investidores.

Novos projetos de investimento, estímulos públicos e aumento de gastos podem fortalecer determinadas áreas da economia, mas também levantam dúvidas sobre como essas iniciativas serão financiadas em um país que já possui uma das maiores dívidas públicas do mundo desenvolvido.

A percepção de que o governo continuará gastando enquanto o Banco do Japão mantém uma política monetária relativamente cautelosa pode reduzir a atratividade do iene.

A situação fiscal japonesa, no entanto, possui características próprias. Grande parte da dívida do país é denominada em ienes e mantida por instituições domésticas, reduzindo o risco de uma fuga repentina de investidores estrangeiros. Isso torna uma crise imediata menos provável, mas não elimina a pressão de longo prazo sobre a moeda.

O que um dólar a ¥170 mudaria no Japão

Um dólar a ¥170 não seria apenas um recorde exibido nas telas dos bancos. A desvalorização do iene encareceria petróleo, gás, alimentos, matérias-primas, medicamentos, eletrônicos e inúmeros produtos importados.

O Japão depende fortemente do exterior para obter energia e parte significativa dos alimentos consumidos no país. Quando o iene cai, empresas precisam pagar mais por combustíveis e insumos negociados em dólares. Uma parcela desses custos acaba sendo repassada para supermercados, transportadoras, restaurantes e consumidores.

Mesmo produtos fabricados no Japão podem ficar mais caros quando dependem de componentes importados.

Para os trabalhadores estrangeiros, a situação traz outro problema. Quem recebe salário em ienes e envia dinheiro para o exterior passa a comprar menos dólares, reais, pesos ou outras moedas com a mesma renda mensal.

Uma remessa de ¥100 mil equivaleria a aproximadamente US$588 com o dólar a ¥170. Na cotação de ¥150, a mesma quantia representaria cerca de US$667. A diferença seria de quase US$79 sem qualquer mudança no salário do trabalhador.

Ao mesmo tempo, a moeda fraca favorece turistas estrangeiros e empresas exportadoras. Visitantes com dólares encontram hospedagem, alimentação e compras relativamente mais baratas, enquanto companhias japonesas podem converter suas receitas internacionais em uma quantidade maior de ienes.

O resultado é uma economia dividida. O câmbio beneficia turismo e exportações, mas reduz o poder de compra de quem vive, consome e economiza dentro do Japão.

¥170 é previsão, não sentença

A estimativa de Vikram Murarka merece atenção por seu desempenho recente no ranking de previsões cambiais, mas não deve ser interpretada como uma certeza.

O iene poderia recuperar força caso o Federal Reserve reduza os juros americanos, o Banco do Japão adote aumentos mais agressivos, o governo realize uma intervenção coordenada com outros países ou os investidores abandonem operações de carry trade.

Uma desaceleração econômica global também poderia aumentar a procura pelo iene, tradicionalmente visto como moeda de proteção em períodos de instabilidade.

A projeção, porém, mostra como o debate cambial mudou. Uma cotação de ¥170, que poucos anos atrás seria vista como um cenário quase impensável, agora é apresentada como uma possibilidade razoável para os próximos doze meses pelo analista mais preciso do último trimestre.

A questão já não é apenas saber se o dólar chegará a ¥170. O verdadeiro desafio será entender quanto tempo as famílias japonesas e os trabalhadores estrangeiros conseguirão suportar uma moeda que perde poder de compra mais rapidamente do que salários e benefícios conseguem acompanhar.

Fontes principais: The Japan Times, Briefs Finance, Bloomberg, MUFG Research, Lazard Asset Management, The Wall Street Journal e Al Jazeera.

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