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Ucraniano vira lenda em Nagoya

Minna Portal julho 27, 2026 7 min 5 visualizações

Aonishiki perdeu a luta que poderia decidir o título, voltou ao dohyō com a perna ainda comprometida e derrotou dois adversários em sequência para completar uma das viradas mais dramáticas do sumô recente.

Uma derrota que parecia encerrar o torneio

Aonishiki Arata entrou no último dia do Grande Torneio de Sumô de Nagoya dependendo apenas de si mesmo. O ucraniano de 22 anos liderava a primeira divisão com 12 vitórias e duas derrotas, enquanto Atamifuji e Kirishima apareciam logo atrás. Uma vitória sobre Atamifuji entregaria ao jovem sekiwake o título sem necessidade de qualquer disputa adicional.

O desfecho, porém, tomou uma direção completamente diferente. Atamifuji impediu Aonishiki de estabelecer a pegada que normalmente utiliza para controlar o centro de gravidade dos adversários e o empurrou para fora do círculo. Pouco depois, o mongol Kirishima derrotou Kotozakura, fazendo com que os três competidores terminassem as 15 rodadas com campanhas idênticas de 12 vitórias e três derrotas. O título que parecia estar nas mãos do ucraniano transformou-se em uma disputa extraordinária diante do público da IG Arena.

No sumô profissional, um empate envolvendo três lutadores é decidido pelo tomoe-sen, formato no qual os competidores se enfrentam em rotação até que um deles consiga duas vitórias consecutivas. Não existe tempo suficiente para lamentar uma derrota, reorganizar a estratégia com calma ou recuperar o corpo. Cada novo confronto pode começar poucos minutos depois do anterior, exigindo concentração, resistência e capacidade de adaptação quase imediata.

Duas lutas seguidas e nenhuma margem para erro

O primeiro combate da disputa extra colocou Atamifuji diante de Kirishima. O japonês venceu e ficou a apenas mais um triunfo do título, obrigando Aonishiki a retornar ao dohyō contra o mesmo adversário que acabara de derrotá-lo na luta regular.

Desta vez, o ucraniano conseguiu transformar o confronto. Em vez de permitir que Atamifuji dominasse a distância com seus empurrões, Aonishiki aproximou o corpo, encontrou uma posição mais favorável e conduziu o rival para fora com um yorikiri, técnica de expulsão frontal baseada no controle e no avanço contínuo. A derrota anterior estava vingada, mas ainda não havia tempo para comemorar.

Kirishima foi imediatamente chamado para enfrentar o vencedor. Aonishiki manteve a postura baixa, resistiu à pressão inicial e voltou a vencer por yorikiri. Em poucos minutos, derrotou os dois concorrentes diretos e garantiu a terceira Taça do Imperador de sua carreira. A Associação Japonesa de Sumô confirmou a campanha de 12–3 e também concedeu ao ucraniano o prêmio de melhor técnica do torneio.

A dimensão da vitória não está somente no resultado. Aonishiki havia perdido a luta que poderia torná-lo campeão de maneira direta e precisou enfrentar novamente o homem que acabara de superá-lo. Depois, sem um período real de recuperação, teve de derrotar um ōzeki experiente. Em vez de carregar a frustração para os combates seguintes, tratou cada encontro como uma nova disputa e reconstruiu o torneio dentro do próprio torneio.

O corpo ferido e a volta ao posto de ōzeki

A campanha em Nagoya também representou a reconstrução de uma carreira que, poucos meses antes, parecia ter perdido o impulso. Aonishiki havia sido promovido a ōzeki, o segundo posto mais elevado do sumô, em novembro de 2025. Em janeiro de 2026, venceu seu segundo campeonato consecutivo e passou a ser tratado como um possível candidato ao título de yokozuna.

O caminho foi interrompido pelas lesões. Em março, terminou o torneio de Osaka com sete vitórias e oito derrotas. Em maio, uma lesão no tornozelo esquerdo o impediu de competir, provocando sua queda para sekiwake. Pelas regras do sumô, um ōzeki rebaixado pode recuperar imediatamente o posto caso alcance pelo menos dez vitórias no torneio seguinte.

Aonishiki atingiu essa marca já no 11º dia em Nagoya, garantindo antecipadamente seu retorno. Mesmo assim, ele e seu mestre haviam estabelecido uma meta mais ambiciosa: não lutar apenas pelas dez vitórias necessárias, mas pelo campeonato. Ao conquistar o título, tornou-se o primeiro lutador a combinar uma recuperação especial ao posto de ōzeki com a vitória no mesmo torneio.

Por isso, a conquista foi muito maior do que uma simples recuperação administrativa no ranking. Aonishiki voltou ao local de onde havia caído carregando a Taça do Imperador, apesar de ainda sentir dores na perna e de ter disputado três combates no último dia, incluindo as duas lutas consecutivas do desempate.

Muito mais do que uma história de refugiado

Nascido Danylo Yavhusishyn, em 23 de março de 2004, Aonishiki deixou a Ucrânia após o início da invasão russa em 2022. Depois de uma passagem pela Alemanha, conseguiu viajar ao Japão com a ajuda de Arata Yamanaka, lutador japonês que havia conhecido durante uma competição juvenil internacional de sumô em 2019.

Ele passou a treinar no estábulo Ajigawa, comandado pelo antigo sekiwake Aminishiki, e fez sua estreia profissional em setembro de 2023. Em março de 2025, já havia alcançado a primeira divisão. O avanço foi tão rápido que transformou o jovem recém-chegado, inicialmente incapaz de falar japonês, em uma das figuras mais reconhecidas do esporte nacional japonês.

Seu nome de ringue, Aonishiki, pode ser traduzido como “brocado azul” e faz referência às cores da Ucrânia. Em novembro de 2025, ele se tornou o primeiro ucraniano a vencer um grande campeonato da primeira divisão, conquista que recebeu destaque de veículos internacionais como The Guardian e Al Jazeera.

Entretanto, resumir sua ascensão apenas à história de um refugiado que encontrou uma nova vida no Japão significaria ignorar o atleta extraordinariamente técnico que surgiu no dohyō. Com 1,82 metro e cerca de 140 quilos, Aonishiki não está entre os competidores mais pesados da elite, mas compensa a diferença com equilíbrio, movimentação baixa, leitura rápida do adversário e uma capacidade incomum de lutar com paciência sob pressão.

Nagoya devolveu o futuro ao ucraniano

A conquista de Nagoya não produz uma promoção automática a yokozuna, mas recoloca Aonishiki entre os principais nomes do sumô. Ele retornará ao posto de ōzeki no próximo ranking, enquanto o torneio de outono será realizado entre 13 e 27 de setembro, no Ryōgoku Kokugikan, em Tóquio.

A discussão sobre o posto máximo do esporte dependerá de resultados consistentes nos próximos campeonatos. Ainda assim, Nagoya demonstrou que as lesões não destruíram sua técnica e que o colapso de uma luta não compromete necessariamente todo o torneio. Aos 22 anos, Aonishiki já soma três títulos da primeira divisão, uma promoção recorde a ōzeki, um rebaixamento doloroso e uma recuperação que nenhum outro lutador havia completado da mesma maneira.

Quando entrou no dohyō para enfrentar Atamifuji pela segunda vez naquele domingo, ele não lutava apenas pela taça. Lutava contra a derrota sofrida minutos antes, contra a dor acumulada e contra a possibilidade de que sua ascensão tivesse chegado cedo demais ao limite. Duas vitórias depois, o ucraniano não apenas conquistou Nagoya: tomou de volta seu lugar entre os gigantes do sumô japonês.

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