Ghibli conquista o kabuki
Uma floresta dominada por deuses antigos, guerreiros amaldiçoados, animais gigantes e seres humanos dispostos a destruir a natureza em nome do progresso. Quase três décadas depois de transformar essa história em um dos filmes mais importantes da animação japonesa, o Studio Ghibli voltou a surpreender o público ao levar Mononoke Hime para um dos palcos mais tradicionais do Japão.
A adaptação de Princesa Mononoke — conhecida no Japão como Mononoke Hime (もののけ姫) — estreou em 3 de julho de 2026 no histórico teatro Shinbashi Enbujo, em Tóquio, como uma grande produção de “Super Kabuki”. A temporada continua até 23 de agosto, reunindo atores consagrados, música inspirada na composição original de Joe Hisaishi e recursos visuais capazes de recriar, diante do público, a guerra entre os seres humanos e os deuses da floresta.
Mais do que uma simples adaptação de uma animação famosa, o espetáculo representa um encontro entre duas formas profundamente japonesas de contar histórias. De um lado, está a linguagem cinematográfica de Hayao Miyazaki, marcada por personagens moralmente complexos e críticas à destruição ambiental. Do outro, encontra-se o kabuki, uma tradição teatral com mais de quatro séculos de história, conhecida pelas interpretações intensas, figurinos elaborados e movimentos carregados de significado.
Uma história que parecia destinada ao kabuki
Lançado originalmente em 1997, Mononoke Hime acompanha Ashitaka, um jovem guerreiro que recebe uma maldição após enfrentar um deus transformado pelo ódio. Em busca de uma cura, ele viaja para o oeste e acaba envolvido no conflito entre os habitantes de Tatara-ba, uma comunidade dedicada à produção de ferro, e as criaturas que protegem a floresta do Shishigami.
No centro da disputa estão San, uma jovem humana criada por lobos, e Lady Eboshi, líder de Tatara-ba. As duas personagens defendem mundos aparentemente incompatíveis. San luta pela sobrevivência da floresta, enquanto Eboshi busca construir uma sociedade economicamente forte e capaz de acolher pessoas marginalizadas.
Essa ausência de uma divisão simples entre heróis e vilões sempre foi uma das principais forças da obra de Miyazaki. A floresta pode ser violenta, os seres humanos podem ser generosos e até mesmo a destruição nasce de necessidades sociais reais. Em vez de apresentar uma resposta definitiva, o filme convida o público a observar o conflito sem preconceitos, ideia resumida pela determinação de Ashitaka de enxergar o mundo “com olhos livres do ódio”.
A própria estrutura da história possui características que dialogam naturalmente com o kabuki. Há confrontos grandiosos, espíritos vingativos, transformações sobrenaturais, frases marcantes e personagens que vivem divididos entre dever, vingança e compaixão. Nakamura Kazutaro, responsável por interpretar San, afirmou que, ao rever o filme já adulto, percebeu como algumas de suas falas e cenas possuíam uma força semelhante às grandes declarações dramáticas encontradas no teatro kabuki.
O renascimento do Super Kabuki
A produção também comemora os 40 anos do surgimento do chamado Super Kabuki. O formato foi estabelecido em 1986 com a estreia de Yamato Takeru, obra que combinou técnicas tradicionais do kabuki com cenários monumentais, efeitos especiais, música contemporânea, cenas de ação e movimentos aéreos sobre a plateia.
A proposta não era abandonar a tradição, mas torná-la acessível a um público que talvez nunca tivesse entrado em um teatro kabuki. Quatro décadas depois, Mononoke Hime foi escolhida para representar uma nova etapa dessa transformação.
A escolha dificilmente poderia ser mais simbólica. Tanto o Super Kabuki quanto o Studio Ghibli construíram suas identidades tentando equilibrar passado e futuro. Enquanto o kabuki procura preservar gestos, técnicas e convenções transmitidas por gerações, Miyazaki frequentemente utiliza mitos, paisagens e valores antigos para discutir problemas do Japão contemporâneo.
No palco, esse encontro aparece na maneira como os personagens foram reconstruídos. Ashitaka e o Shishigami são interpretados por Ichikawa Danko, enquanto Nakamura Kazutaro assume o papel de San. Nakamura Tokizo interpreta Lady Eboshi, Ichikawa Enya representa Jiko-bo e Ichikawa Chusha aparece como o gigantesco deus-javali Okkoto-nushi.
O elenco ainda inclui Ichikawa Emisaburo como Moro-no-kimi, a deusa-loba que criou San, além de outros atores ligados às principais famílias do kabuki. Ao todo, dez personagens centrais receberam caracterizações que misturam a aparência conhecida do filme com maquiagem, figurinos e movimentos próprios do teatro tradicional japonês.
A floresta de Miyazaki ganha vida
Um dos maiores desafios da produção foi transportar para o palco um universo que, no cinema, depende fortemente da animação. A versão original apresenta javalis gigantes, lobos que falam, pequenas criaturas chamadas kodama, demônios cobertos por tentáculos e o Shishigami, divindade que muda de forma ao anoitecer.
O espetáculo utiliza cenários móveis, efeitos especiais, iluminação dramática, coreografias de combate e o tradicional chunori, técnica na qual os atores são suspensos por cabos e “voam” sobre a plateia. A produção também conserva a música original de Joe Hisaishi, adaptada para acompanhar a intensidade e o ritmo das cenas ao vivo.

A presença física dos atores produz uma experiência diferente daquela oferecida pelo cinema. Em vez de observar a floresta através de uma tela, o público acompanha a transformação do espaço diante dos próprios olhos. Os corpos dos intérpretes, as roupas pesadas, os sons do palco e os movimentos deliberadamente exagerados tornam a batalha entre humanos e deuses mais próxima de uma cerimônia.
Esse aspecto ajuda a explicar a recepção positiva da adaptação. Para espectadores que já conhecem o filme, o espetáculo oferece a oportunidade de redescobrir personagens e conflitos familiares. Para quem nunca assistiu a uma apresentação tradicional, a presença de uma história conhecida do Studio Ghibli funciona como uma porta de entrada para o universo do kabuki.
O peso de carregar uma obra de Miyazaki
Interpretar personagens tão conhecidos também trouxe uma responsabilidade considerável para o elenco. Ichikawa Danko, que vive Ashitaka, afirmou antes da estreia sentir uma combinação de medo, entusiasmo e forte tensão diante do papel.
A ligação do ator com o Super Kabuki é especialmente pessoal. Seu avô, Ichikawa En’o II, foi o artista que ajudou a criar o formato na década de 1980. Danko contou que ouviu “The Legend of Ashitaka”, uma das composições mais conhecidas de Mononoke Hime, quando recebeu a notícia da morte do avô. Segundo ele, a música lhe trouxe esperança durante aquele momento de tristeza.
A participação na nova produção, portanto, conecta três gerações diferentes da cultura japonesa: o legado do kabuki, a revolução teatral iniciada por seu avô e a obra cinematográfica de Miyazaki.
O ator também deixou claro que o objetivo não era criar uma apresentação destinada apenas aos fãs tradicionais do teatro. A equipe buscou desenvolver uma produção que pudesse satisfazer tanto os frequentadores habituais do kabuki quanto o público mais jovem atraído pelo Studio Ghibli.
Ghibli encontra um novo público
O sucesso cultural de Mononoke Hime no palco mostra como personagens da animação japonesa estão ultrapassando os limites do cinema. O filme já havia inspirado produtos, exposições, relançamentos e uma área temática no Ghibli Park, localizado em Nagakute, na província de Aichi. Agora, sua transformação em Super Kabuki reforça o potencial dessas histórias para aproximar diferentes gerações e tradições artísticas.
Os ingressos para a temporada no Shinbashi Enbujo variam de 3.000 a 18.000 ienes, dependendo da localização dos assentos. Também existe uma modalidade destinada a pessoas com até 30 anos, que permite a compra de lugares disponíveis pela metade do preço no dia da apresentação.
A iniciativa mostra uma preocupação importante com o futuro do teatro japonês. Para sobreviver, uma tradição não precisa permanecer imutável. Ela pode absorver novas histórias, dialogar com outros públicos e transformar personagens contemporâneos em parte de seu próprio repertório.
Mononoke Hime sempre foi uma obra sobre a dificuldade de construir pontes entre mundos aparentemente incompatíveis. No filme, Ashitaka tenta impedir que humanos e deuses destruam uns aos outros. No palco, o mesmo personagem conecta animação e teatro, cultura pop e tradição, passado e futuro.
Quase 30 anos depois de sua estreia nos cinemas, a princesa criada pelos lobos voltou a enfrentar os seres humanos. Desta vez, porém, a batalha acontece diante de uma plateia, sob as luzes do kabuki e no centro de uma das maiores celebrações culturais do Japão.